Revista Electrónica Latinoamericana de Estudios sobre Juventud
año 2 nº 03   

..21º semestre 2006 / Junio 2006

 

LOS ESTUDIANTES SECUNDARIOS DE CHILE
 cuando los jóvenes se manifiestan.....

 
     

A REBELIÃO DOS PINGÜINS:
UMA ENTREVISTA ESPECIAL COM OSCAR DÁVILA

POR GRAZIELA MARIA WOLFART

 
Oscar Dávila León

No intuito de entendermos melhor a situação que vive o Chile com a manifestação de estudantes por melhores condições do ensino no País, entrevistamos por e-mail a Oscar Dávila León, de Valparaíso, no Chile, onde há 18 anos ele atua como pesquisador na ONG Centro de Estudos Sociais CIDPA de Valparaíso, Chile.

Tem trabalhado e publicado artigos sobre temáticas de atores sociais populares, políticas sociais, juventude urbana popular e política de juventude, além de ser o editor permanente da Revista Última Década que a CIDPA edita semestralmente.

IHU On-Line - O que significa essa revolução dos jovens depois de 16 anos de democracia no Chile?

Oscar Dávila - Poderíamos dizer que os estudantes mobilizados estão apelando e interpelando o governo e a sociedade como um todo por maiores níveis de «proteção social», pois, a partir da educação pública, estão seriamente ameaçadas suas trajetórias escolares e de vida futura. Trata-se da defasagem entre as expectativas dos jovens e as possibilidades reais, ou, caso queiramos expressar isso de maneira eufemística, estes jovens, filhos da transição democrática, acreditaram de boa vontade no conto da necessidade de gerar uma nova revolução de expectativas e que estas seriam cumpridas. A questão é que elas até hoje não se cumpriram, e, além disso, também estão ameaçadas.

   

IHU On-Line - Qual é o impacto do modelo econômico adotado pelo País sobre a educação?

Oscar Dávila - Esse é um tema fundamental no atual conflito da educação: o espírito e a estrutura que se herdou da ditadura militar, principalmente a través da Lei Orgânica Constitucional de Ensino ( LOCE ), concebeu um modelo economicista e mercantil, de onde a educação não escapou. Mais ainda, e como um modelo muito peculiar, o Estado chileno assumiu o papel subsidiário e também financia a educação privada com fundos públicos, incluindo a iniciativa privada com fins de lucro na tarefa de prover serviços de educação. No Chile se assumiu a lógica de que a educação é uma mercadoria que se compra no mercado e, de acordo com a nossa possibilidade de pagamento, é o tipo de educação que recebemos.

IHU On-Line - Como as escolas particulares estão vendo esse movimento?
Participam também ou estão ausentes?

Oscar Dávila - O sistema educacional chileno primário e secundário se subdivide em três: o sistema municipal público (50%), financiado pelo Estado e dependente dos municípios (prefeituras); o sistema denominado particular subvencionado (40%), iniciativa de privados, mas que recebe financiamento (subvenção) do Estado e também dos alunos, e o sistema particular pago (10%), completamente privado, que não recebe aportes estatais. Este movimento é composto, em sua maioria, pelos alunos e colégios da educação municipalizada, que são os grandes atores envoltos, chegando também aos colégios particulares subvencionados. Os colégios particulares pagos (alguns, porém em menor medida) se solidarizaram com o movimento.

IHU On-Line - Está correta a análise que a imprensa faz sobre adolescentes e jovens que atuam politicamente, tanto no Partido Comunista quanto em movimentos ultra-conservadores, como a União Democrática Independente ( UDI ), mas que todos compartilham a desilusão pelos resultados do modelo econômico chileno?

Oscar Dávila - É difícil «encaixar» politicamente os atores do movimento, pois creio que, antes disso, estamos diante de um «movimento cidadão» que se orienta por outro tipo de critérios e ações, que não se enquadram completamente na leitura política mais clássica. Pode ser que haja participação de simpatizantes de todas as correntes ou sensibilidades políticas, porém eu não me atreveria a dizer que essa ótica apareça como algo central das demandas e direcionalidades do movimento.

O perfil dos atores do processo

Por outro lado, talvez possa ser mais preciso e relevante assinalar que este movimento está constituído majoritariamente por jovens de baixos recursos e situação sócio-econômica mais precária, que é precisamente o setor atendido no Chile pela educação municipal pública. A autoria social do movimento é dos «deserdados». Há alguns meses apresentamos um amplo estudo sobre trajetórias de vida e novas condições juvenis de jovens estudantes do sistema municipal, que intitulamos «Os deserdados»: os jovens que não podem apelar às heranças familiares em sua acumulação de capitais escolares, culturais, sociais, financeiros ou simbólicos. São estes os atores do processo, precisamente por encararem o seu futuro com mais desconfiança e incerteza.

IHU On-Line - Como os movimentos de jovens relacionados à Igreja aparecem na atual revolução?

Oscar Dávila - Talvez seja exagerado considerar estas mobilizações como uma revolução. Podemos dizer que ele corresponde a uma «explosão historicista», fruto de processos sociais que já nasceram danificados e que na oportunidade não tiveram expressividade pública, como a que vemos nestes dias. Estaria mais próximo a uma dupla «rebelião», entendida como um levantamento cidadão, e um «revelar-se», como tirar o véu do oculto e ignorado sobre as iniqüidades e desigualdades sociais que estão produzindo a estratificação no acesso à educação. E, até onde eu pude entender, os jovens pertencentes a movimentos religiosos ou afins, não têm tido nenhuma visibilidade como setor específico, embora façam parte do movimento em muitos casos.

IHU On-Line - Qual é o impacto desses movimentos no governo de Bachelet?

Oscar Dávila - É um impacto tremendo e dos mais negativos, pois o governo da presidente Bachelet, tendo até o momento administrado o conflito via Ministério da Educação, cometeu todos os erros imagináveis, encontrando-se este mesmo ministério ultrapassado e sob um forte questionamento de todos os atores sociais e políticos. Estas mobilizações são o primeiro conflito aberto e de massa que o atual governo precisou enfrentar, não tendo desenvolvido até agora uma condução política articulada nem coordenada no conjunto da equipe de governo. Parece que, pelo caráter que tomou o conflito, ele não merece uma «resposta técnica às demandas dos estudantes», mas uma resposta de caráter ético-político.

   

IHU On-Line - O senhor pensa que estes jovens possam estar, de certa forma, trazendo também reivindicações de outros setores da sociedade, como os trabalhadores e sindicatos, por exemplo? Se concorda, quais seriam as conseqüências?

Oscar Dávila - Em primeiro lugar convém assinalar que este movimento acirrou o mais amplo e unânime apoio de todos os setores e atores sociais e políticos (inclusive, em parte, da direita política, com outros fins). Isso quer dizer que ele adquiriu uma legitimidade tremenda, não só nas formas de atuação e mobilização dos estudantes, mas fundamentalmente em suas demandas e conteúdos. É a demanda por uma sociedade mais eqüitativa e justa, na qual os benefícios do crescimento cheguem a todos os chilenos. Ela se apresenta a nós como um tema de estratégias e táticas políticas de atuação, onde não se pode pedir aos jovens que eles sejam os transformadores do sistema educacional chileno. O grande resultado em si do movimento estudantil é ter apresentado o tema e que é possível mudá-lo, quando durante muitos anos não se tem tido a força ou a vontade de questionar o sistema educacional herdado da ditadura.

As possíveis alianzas

No nível de possíveis alianças ou envolvimento de outros setores, o mais claro se visualiza pelo sindicato dos professores, os quais estão desde já avaliando a convocação de uma marcha nacional de professores em apoio às demandas do movimento estudantil e incluindo também demandas próprias do setor. Penso que não estamos num «maio francês», tecendo-se alianças entre estudantes e trabalhadores. De fato, os estudantes universitários, também em parte mobilizados, não têm tido um papel preponderante, sendo que também estão incluídos nas demandas dos secundários.

IHU On-Line - O que significa a repressão tão dura de um governo socialista liderado por uma mulher?

Oscar Dávila - A dura repressão da força pública, nestes dias, contra os estudantes, obrigou a Presidência a sair perante a opinião pública, tomando medidas parciais de sanção contra alguns efetivos da polícia. Obviamente, aparece como inaceitável a conduta da polícia num governo liderado por uma socialista. Inclusive o maior rebuliço pela repressão policial se deu com base na agressão de três jornalistas. Porém, nos dias seguintes, a repressão havia sido mais ou menos similar, numa tentativa do governo de não ser «castigado» pelos meios de comunicação.

IHU On-Line - Qual será o desenlace de tudo isso?

Oscar Dávila - É difícil saber, sobretudo no nível de estancamento das negociações entre o governo e os estudantes, porém, sem dúvida, o desenlace deveria se encaminhar para uma saída política, pois este é um conflito político da maior importância. É muito provável que o desenlace tenha como protagonistas a presidente e os jovens estudantes, sem intermediações de ministros, parlamentares ou partidos políticos. E esse desenlace deveria ter diferentes componentes, em temporalidade e profundidade.

A educação num processo participativo

É possível que os jovens vejam algumas demandas específicas serem cumplidas de maneira completa, satisfatória e de imediato. E também que outras medidas nessa lógica discursiva, ética e política, que estejam mais numa linha de compromissos, sejam assumidas por parte do governo em médio prazo. Ejemplo disso são as pautas legislativas e similares, como abrir um debate nacional sobre a educação chilena, num processo participativo, democrático e com a participação de todos os atores envolvidos. Se fosse assim, os jovens estudantes conseguiriam mais do que um lugar à mesa e com a legitimidade para sentar-se na cabeceira.

Valparaíso (Chile) , 1 de junio 2006

Publicado por:
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
São Leopoldo (RS) - BRASIL
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