Parcerias saudáveis
A colaboração entre educadores e agentes de saúde pode fortalecer
a promoção dos direitos juvenis, incluindo os sexuais e os de redução de danos
causados pelas drogas
Haraldo
Cesar Saletti Filho
O
diálogo entre educadores e médicos enseja renovados desafios para o cuidado de
saúde dos jovens. Nas escolas, dá-se a socialização juvenil e o alargamento de
fronteiras (da família para a comunidade local e desta para a sociedade, com
suas regras, barreiras e recompensas, nem sempre acessíveis a todos). Nos
serviços de saúde, há encontros clínico-assistenciais, quando pode haver
privacidade e sigilo. Os jovens ficam frente a frente com enfermeiros,
psicólogos, dentistas, médicos e outros profissionais.
Atualmente, as
equipes do programa Saúde da Família, com agentes comunitários de saúde, muitos
deles jovens, atuam integrando a assistência médica às diferentes dimensões de
escuta e de cuidado
Sexo e drogas
Os
profissionais de saúde e os educadores precisam ser sensíveis ao cotidiano, às
aberturas e às barreiras para a formulação de projetos para a vida, e às
diferentes vulnerabilidades juvenis.
Quero dizer que o trabalho
cooperado entre educadores e médicos, além dos demais profissionais de saúde,
abarca questões como identidade sexual, uso e abuso de drogas etc. Há vivências
em questão e redes sociais onde se dão trocas simbólicas e materiais. O trânsito
interdisciplinar é uma ferramenta para nossa capacitação, desde o fortalecimento
do olhar para dimensões ainda pouco reconhecidas, relativas a interesses,
motivações e sofrimentos que acompanham as incursões juvenis no mundo e na vida,
até a condução objetiva de projetos para a redução de vulnerabilidades, pela
sensibilização da comunidade escolar e pela formulação de parcerias
intersetoriais.
É necessário preparo profissional (seja na saúde, seja
na educação) para uma efetiva provisão de meios direcionados aos direitos
sexuais e reprodutivos, o que nos remete ao exercício de uma sexualidade com
autonomia e respeito interpessoal, que não ignore ou moralize as diversidades
sexuais, reconhecendo dúvidas e interesses sobre métodos contraceptivos, DST e
Aids, concepção, maternidade e paternidade, transformações físicas e psíquicas,
além dos papéis sociais de garotos e garotas que vivem sua adolescência e
juventude na sociedade brasileira.
Outra tarefa para uma resposta social
que envolva escola, bairros, Centros de Saúde e famílias é a redução de danos,
cuidando-se da saúde de pessoas que utilizam drogas. Para isso, baseando-se na
diferença entre uso (experimentação), abuso (episódios de consumo excessivo,
expondo a pessoa e outros a riscos) e dependência (necessidade física de se
manter o uso da droga) de substâncias psicoativas, de forma prática, provêem-se
o acesso de jovens a serviços de saúde e o seu acolhimento por famílias, assim
como se trabalham coletivamente os desafios das vulnerabilidades juvenis.
Educação integral
Uma
dimensão de trabalho com a vulnerabilidade é a programática, ou seja, escolas
freqüentadas por jovens que tematizam o uso de drogas, que abordam a
sexualidade, não só pela biologia, mas também inserida em perspectivas atentas à
cultura contemporânea e local, escolas que reflitam sobre os sentidos e
significados dos relacionamentos amorosos e sexuais, escolas que sensibilizem
pais e alunos para questões prementes da própria vida das pessoas que estão em
formação são escolas que ampliam as possibilidades de ocorrerem práticas
solidárias para a troca de informação e de apoio.
A parceria das escolas
com serviços de saúde facilita o acesso aos insumos preventivos, à orientação
médica etc. Por exemplo, uma escola que inclui no projeto pedagógico uma ação
universal em defesa dos direitos humanos, do direito à vida, dos direitos
sexuais e reprodutivos, do direito à saúde, de modo mais amplo, e que discuta em
seu conselho gestor esse projeto, mais facilmente identifica e viabiliza
parcerias com serviços de saúde e organizações não-governamentais. Essa escola
pode justificar seu trabalho com base na perspectiva da redução de
vulnerabilidade, inserindo-a em sua dimensão programática.
Outro ponto é
a vulnerabilidade social. Precisamos entender como são as relações de gênero, os
papéis de homens e mulheres na sociedade, os padrões de masculinidade em questão
etc. E, além disso, os níveis de pobreza, de desigualdade social, de
marginalização dos meios de consumo e do acesso a lazer e cultura.
A
estrutura familiar e o tipo de suporte para a formação pessoal nem sempre são
constantes, presentes e de apoio. Mas são nesses pontos que se dão as condições
de realização dos projetos para a vida, definindo-se os fatores que servem de
referência, o sentimento de presença de outros e de estar diante dos outros, e
de ter suporte pessoal, entre diversos aspectos.
Assim se forja a
segurança existencial, de não se estar só, enfim, de esperança, às vezes já
tênue, e, infelizmente, para alguns jovens, já perdida, de ter uma existência
respeitada e com expectativas de felicidade amparadas pela família, pela
comunidade, pela escola, pelo serviço de saúde etc.
Como desdobramento,
educadores, jovens, pais, profissionais de saúde, toda a rica malha de serviços
de saúde em atenção primária, em atenção especializada e hospitalar podem
dialogar e formular respostas.
Para tanto, é importante conhecer as
repercussões no campo dos direitos da Conferência Internacional sobre População
e Desenvolvimento no Cairo (1994) e da Conferência Internacional de Mulheres em
Beijing (1995), que propuseram a superação da perspectiva de saúde reprodutiva
que enfatiza o controle da natalidade, para se reconhecer a sexualidade como
experiência positiva que inclui sexo, identidades e papéis de gênero, orientação
sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução.
No que diz respeito a
políticas públicas, também é necessário que o educador entenda e conheça as
bases legais da política de redução de danos que minimiza riscos e prejuízos à
saúde dos usuários de drogas. Um exemplo são os danos sofridos por quem usa
drogas injetáveis e que não consegue parar de usá-las, compartilhando a seringa
e se expondo à infecção pelo HIV, por hepatites e outras doenças de transmissão
por via sanguínea.
A redução de danos como política convida a se
relacionarem dimensões como a saúde mental, o controle das hepatites virais e da
disseminação das DST e Aids, com o objetivo de promover a integralidade da
atenção e a visibilidade da redução de danos como uma política de saúde pública.
A Portaria nº. 1.028, de 4 de julho de 2005, do Ministério da Saúde, é o marco
legal para a orientação das políticas de redução de danos.
O conceito de
redução de danos pode ser ampliado, como uma forma de orientar educadores e
jovens a não agravarem a exclusão social, mas para lidarem com as diferenças
sociais. Segundo o Ministério da Saúde, a disseminação do HIV entre os usuários
de drogas, seus parceiros sexuais e filhos constitui ainda um dos mais sérios
danos decorrentes do consumo de determinadas substâncias psicoativas. Por isso,
é necessária a criação de uma rede de ações para o fortalecimento da rede de
redução de danos. Várias cidades contam com Centros de Apoio Psicossocial (CAPS)
com médicos psiquiatras e psicólogos, que são potenciais parceiros para se
realizarem ações educativas em ambiente escolar.
Uma preocupação de
educadores, freqüentemente, é o risco da banalização das discussões sobre
sexualidade e uso abusivo de drogas. Defendo que ações em rede potencializam o
trabalho, dividem as responsabilidades e ampliam as trocas e os aprendizados.
O manejo de debates sobre tais temas é mais seguro quando se fortalece a
participação direta dos jovens e se tem a retaguarda de parceiros que podem
ajudar no desenvolvimento e na sustentação de discursos e de meios (como kits de
redução de danos), para se disseminarem práticas promotoras de direitos, tais
como o direito sexual e reprodutivo e o direito à saúde. Na sociedade da
informação, a capacidade de aliança é uma característica fundamental de um bom
gestor e de um profissional atento aos movimentos culturais do nosso mundo, pois
o fundamental do aprendizado hoje é saber trocar e romper com o isolamento e,
assim, reduzir as vulnerabilidades juvenis.
Sobre o autor
Haraldo
Cesar Saletti Filho é médico sanitarista com especialização
Depoimento
“Viver minha opção sexual na escola é difícil, principalmente com os
colegas, os mais preconceituosos. Em alguns professores encontro mais apoio. Por
exemplo, quando surge uma situação em que começam a zoar com o assunto na
classe, com frases ou atitudes agressivas ou desrespeitosas, o professor olha
para minha cara e arruma um jeito de mudar o rumo da conversa. Mas é isso, eles
não colocam o tema para ser discutido a sério. Uma vez, eu queria colocar um
cartaz de divulgação da Parada Gay,
Felipe Áquilla, 18 anos, estudante do 3º
ano do ensino médio em uma escola pública de Campinas, SP
Fuente: http://ondajovem.terra.com.br/materiadet.asp?idtexto=346