Juventude Rural
 
O desenvolvimento sustentável passa pela agricultura familiar, menos prejudicial ao ambiente e com grande potencial de trabalho para a juventude

Ulisses Freitas

Matéria publicada na Edição 7 - Março de 2007 - Meio Ambiente
 
 Na cidade ou no campo, um desenvolvimento que assegure o futuro das novas gerações exige repensar todos os nossos modos de viver – desde hábitos cotidianos que degradam o ambiente e desperdiçam recursos até a forma econômica de gerar trabalho e renda. Especialistas concordam que uma das melhores possibilidades do Brasil nesse caminho está no campo, com a agricultura familiar. Com 80% dos 4,8 milhões de estabelecimentos rurais nas mãos de pequenos produtores, o setor emprega 70% da mão-de-obra rural e responde por 10% do PIB nacional e 40% do PIB da agropecuária. Além de responder pela maior parte dos alimentos na mesa dos brasileiros, ela permite o uso de métodos menos prejudiciais ao ambiente e emprega mais pessoas, criando alternativas especialmente para os jovens em busca de construir um futuro. Trata-se, em resumo, de um dos setores que mais podem contribuir para o desenvolvimento sustentável, segundo Ivanise Knapp, assessora técnica da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Meio Ambiente: “A agricultura familiar se faz em pequenas áreas, não é monocultora e busca caminho próprio para sua viabilização por meio do associativismo e do cooperativismo. A sustentabilidade ambiental, social e cultural desse modelo em relação ao agronegócio monocultor típico do latifúndio é enorme”, explica.

Mas, para especialistas, a agricultura familiar brasileira ainda não tem sido contemplada como deveria e continua sofrendo desastrosos impactos, como a dificuldade para a geração de renda e a inserção nos mercados, e a percepção do meio rural como um espaço marcado pela falta de acesso a bens de serviço e infra-estrutura. Os jovens, que acabam empurrados para as grandes metrópoles em busca de oportunidades de trabalho e estudo, são os que mais refletem a falta de investimentos e políticas para o setor.

Segundo dados do IBGE, dos quase 35 milhões de jovens com 14 a 24 anos de idade no Brasil, 18% residem no meio rural. De 1991 a 2000, houve uma redução de 26% da população jovem no campo. Os processos migratórios têm acarretado não só a redução da população rural como também um processo de masculinização. Além do predomínio juvenil, o movimento migratório recente tem ampla participação feminina. As mulheres representam 52% do total da migração jovem.
Ambiente juvenil

Há, por outro lado, um vigoroso fortalecimento e uma expansão dos movimentos sociais envolvendo os jovens do campo. “O surgimento de organizações de juventude dos movimentos rurais do Brasil é um fenômeno que tem impressionado. Em todos os movimentos sociais rurais, a juventude está organizada ou é, no mínimo, tema considerado relevante”, afirma Elisa Guaraná, doutora em Antropologia, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e autora da pesquisa “Entre Ficar e Sair: Uma Etnografia da Construção Social da Categoria Jovem Rural”.

E a nova juventude rural tem entre suas bandeiras de luta não só o acesso a terra, saúde, cultura, educação e renda, mas também a promoção do desenvolvimento sustentável e a preservação do ambiente. Segundo Elisa Guaraná, a questão ambiental está claramente presente no ideal de campo que a juventude dos movimentos sociais constrói no seu dia-a-dia, colocando-a entre os pontos prioritários de suas pautas de reivindicação junto aos gestores de políticas públicas. “Uma imagem recorrente nas entrevistas com jovens dos movimentos sociais é a do meio rural como espaço tranqüilo e bom de se viver – justamente pela relação com a natureza –, mas que sofre com problemas ambientais, de produção e de infra-estrutura.”

Também para Maria Elenice Anastácio, coordenadora nacional da juventude rural da Contag, a juventude trabalhadora do campo tem participado desse debate ativamente: “Hoje, temos duas importantes iniciativas de formação que consideram a dimensão do meio ambiente: o Programa Jovem Saber e o Consórcio Social da Juventude Rural – Rita Quadros, que envolvem aproximadamente 18 mil jovens”. Nos dois casos, o meio ambiente aparece associado às atividades de produção da agricultura familiar.

Os cursos desenvolvidos por meio do Consórcio e os estudos orientados pelos grupos do Programa Jovem Saber surgiram da necessidade de se informar os jovens sobre como desenvolver novas tecnologias que melhorem sua produção sem ameaçar o meio ambiente. “Como resultados, podemos perceber a mudança para hábitos produtivos mais comprometidos com o desenvolvimento sustentável, uma participação mais ativa da juventude na produção familiar e uma maior organização desses jovens na defesa do meio ambiente e dos seus direitos como trabalhadores e trabalhadoras”, diz Elenice.

Essa discussão também vem mobilizando a juventude para refletir sobre outras questões: “Neste ano, pretendemos intensificar ainda mais o debate sobre o meio ambiente junto aos jovens, introduzindo a discussão da agroecologia, associando o saber popular e o saber científico, para garantir uma produção ambientalmente mais equilibrada e sustentável. Com isso, queremos fortalecer uma agricultura livre dos venenos químicos, preservando a saúde do trabalhador rural e levando à mesa do consumidor alimentos mais saudáveis”.
Políticas públicas

Para a pesquisadora Elisa Guaraná, as atuais políticas públicas para a agricultura familiar têm dado alguma contribuição à questão da sustentabilidade, mas ainda de forma muito tímida. “Existem iniciativas de apoio a cursos de formação e projetos pontuais, mas ainda não é uma política maciça”, diz.

Para Fabiano Kempfer, coordenador de Política de Juventude no Campo, da Secretaria do Reordenamento Agrário do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a juventude rural apresenta uma das maiores demandas de políticas com recorte ecológico e os programas de formação e qualificação profissional têm o desenvolvimento rural sustentável como norte. “A juventude é fundamental para o processo de inovação tecnológica na agricultura familiar”, diz.

O MDA tem duas políticas com foco na juventude. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) criou o Pronaf Jovem, que atende interessados em desenvolver novas experiências produtivas que promovam agregação de renda ou atividades exploradas pela unidade familiar. E o Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) desenvolveu o programa Nossa Primeira Terra, que já atendeu 20 mil jovens. Foram investidos R$ 512 milhões na compra de terras e estão previstos cerca de R$ 380 milhões para a estruturação produtiva destas novas unidades por meio do Pronaf.
Resultados positivos

No semi-árido baiano, a bem-sucedida experiência do Movimento de Organização Comunitária (MOC) é um exemplo da força da participação dos jovens no desenvolvimento integral, participativo e ecologicamente sustentável. Sediado em Feira de Santana, o MOC forma os jovens na perspectiva da agroecologia, o que os leva a entender a propriedade agrícola como um sistema complexo, no qual ocorrem processos ecológicos que devem contribuir para a produção com menos impactos sociais e ambientais, e para a redução de insumos externos, promovendo, assim, o desenvolvimento sustentável.

“Muitos jovens multiplicadores têm se destacado, até mesmo como lideranças nas organizações sociais, realizando projetos voluntários de educação ambiental em suas comunidades, tendo a propriedade da sua família como referência na transição agroecológica, além das ações de mobilização, capacitação e visitas de intercâmbio que realizam com as famílias que acompanham”, conta Renata Santana, coordenadora do Subprograma de Assistência Técnica (Ater) do MOC.

No município de Casimiro de Abreu (RJ), alguns programas voltados aos jovens do meio rural exemplificam os resultados positivos de políticas públicas com a participação da sociedade. Os programas socioeducativos Jovem Agricultor Orgânico, Paisagista Mirim e Ecoturismo Rural para Jovens, iniciativas da Secretaria Municipal de Agricultura e Pesca, em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, são realizados com recursos do Pronaf. Baseados na agroecologia e no desenvolvimento rural sustentável, os programas envolvem 80 jovens, entre 14 e 17 anos, filhos de agricultores familiares e trabalhadores urbanos, matriculados na rede pública de ensino.

Segundo Marcio Piratello, técnico da Secretaria de Agricultura e Pesca de Casimiro de Abreu, os programas socioeducativos são iniciativas pioneiras no estado, no que se refere a sistemas agroflorestais. “A diversidade de espécies cultivadas – alimentícias, florestais, ornamentais e medicinais – contribui para a recuperação de áreas degradadas e a conservação das florestas, além de ser um sistema de produção ecologicamente correto”, explica Piratello. Ele conta que os programas incentivam técnicas ambientalmente corretas e provocam reflexões sobre sustentabilidade. Na prática, isso se deu com a mudança de paradigma de muitas famílias de agricultores, cujos filhos participam dos programas. “Eles passaram a praticar uma agricultura mais limpa, mais saudável para a própria família e para o consumidor dos seus produtos”.