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Na cidade ou no campo, um
desenvolvimento que assegure o futuro das novas gerações exige
repensar todos os nossos modos de viver – desde hábitos cotidianos
que degradam o ambiente e desperdiçam recursos até a forma econômica
de gerar trabalho e renda. Especialistas concordam que uma das
melhores possibilidades do Brasil nesse caminho está no campo, com a
agricultura familiar. Com 80% dos 4,8 milhões de estabelecimentos
rurais nas mãos de pequenos produtores, o setor emprega 70% da
mão-de-obra rural e responde por 10% do PIB nacional e 40% do PIB da
agropecuária. Além de responder pela maior parte dos alimentos na
mesa dos brasileiros, ela permite o uso de métodos menos
prejudiciais ao ambiente e emprega mais pessoas, criando
alternativas especialmente para os jovens em busca de construir um
futuro. Trata-se, em resumo, de um dos setores que mais podem
contribuir para o desenvolvimento sustentável, segundo Ivanise
Knapp, assessora técnica da Secretaria de Desenvolvimento
Sustentável do Meio Ambiente: “A agricultura familiar se faz em
pequenas áreas, não é monocultora e busca caminho próprio para sua
viabilização por meio do associativismo e do cooperativismo. A
sustentabilidade ambiental, social e cultural desse modelo em
relação ao agronegócio monocultor típico do latifúndio é enorme”,
explica.
Mas, para especialistas, a agricultura familiar
brasileira ainda não tem sido contemplada como deveria e continua
sofrendo desastrosos impactos, como a dificuldade para a geração de
renda e a inserção nos mercados, e a percepção do meio rural como um
espaço marcado pela falta de acesso a bens de serviço e
infra-estrutura. Os jovens, que acabam empurrados para as grandes
metrópoles em busca de oportunidades de trabalho e estudo, são os
que mais refletem a falta de investimentos e políticas para o setor.
Segundo dados do IBGE, dos quase 35 milhões de jovens com 14
a 24 anos de idade no Brasil, 18% residem no meio rural. De 1991 a
2000, houve uma redução de 26% da população jovem no campo. Os
processos migratórios têm acarretado não só a redução da população
rural como também um processo de masculinização. Além do predomínio
juvenil, o movimento migratório recente tem ampla participação
feminina. As mulheres representam 52% do total da migração jovem.
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Ambiente
juvenil
Há, por outro lado, um vigoroso fortalecimento
e uma expansão dos movimentos sociais envolvendo os jovens do campo.
“O surgimento de organizações de juventude dos movimentos rurais do
Brasil é um fenômeno que tem impressionado. Em todos os movimentos
sociais rurais, a juventude está organizada ou é, no mínimo, tema
considerado relevante”, afirma Elisa Guaraná, doutora em
Antropologia, professora da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (UFRRJ), e autora da pesquisa “Entre Ficar e Sair: Uma
Etnografia da Construção Social da Categoria Jovem Rural”.
E
a nova juventude rural tem entre suas bandeiras de luta não só o
acesso a terra, saúde, cultura, educação e renda, mas também a
promoção do desenvolvimento sustentável e a preservação do ambiente.
Segundo Elisa Guaraná, a questão ambiental está claramente presente
no ideal de campo que a juventude dos movimentos sociais constrói no
seu dia-a-dia, colocando-a entre os pontos prioritários de suas
pautas de reivindicação junto aos gestores de políticas públicas.
“Uma imagem recorrente nas entrevistas com jovens dos movimentos
sociais é a do meio rural como espaço tranqüilo e bom de se viver –
justamente pela relação com a natureza –, mas que sofre com
problemas ambientais, de produção e de infra-estrutura.”
Também para Maria Elenice Anastácio, coordenadora nacional
da juventude rural da Contag, a juventude trabalhadora do campo tem
participado desse debate ativamente: “Hoje, temos duas importantes
iniciativas de formação que consideram a dimensão do meio ambiente:
o Programa Jovem Saber e o Consórcio Social da Juventude Rural –
Rita Quadros, que envolvem aproximadamente 18 mil jovens”. Nos dois
casos, o meio ambiente aparece associado às atividades de produção
da agricultura familiar.
Os cursos desenvolvidos por meio do
Consórcio e os estudos orientados pelos grupos do Programa Jovem
Saber surgiram da necessidade de se informar os jovens sobre como
desenvolver novas tecnologias que melhorem sua produção sem ameaçar
o meio ambiente. “Como resultados, podemos perceber a mudança para
hábitos produtivos mais comprometidos com o desenvolvimento
sustentável, uma participação mais ativa da juventude na produção
familiar e uma maior organização desses jovens na defesa do meio
ambiente e dos seus direitos como trabalhadores e trabalhadoras”,
diz Elenice.
Essa discussão também vem mobilizando a
juventude para refletir sobre outras questões: “Neste ano,
pretendemos intensificar ainda mais o debate sobre o meio ambiente
junto aos jovens, introduzindo a discussão da agroecologia,
associando o saber popular e o saber científico, para garantir uma
produção ambientalmente mais equilibrada e sustentável. Com isso,
queremos fortalecer uma agricultura livre dos venenos químicos,
preservando a saúde do trabalhador rural e levando à mesa do
consumidor alimentos mais saudáveis”.
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Políticas públicas
Para a
pesquisadora Elisa Guaraná, as atuais políticas públicas para a
agricultura familiar têm dado alguma contribuição à questão da
sustentabilidade, mas ainda de forma muito tímida. “Existem
iniciativas de apoio a cursos de formação e projetos pontuais, mas
ainda não é uma política maciça”, diz.
Para Fabiano Kempfer,
coordenador de Política de Juventude no Campo, da Secretaria do
Reordenamento Agrário do Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA), a juventude rural apresenta uma das maiores demandas de
políticas com recorte ecológico e os programas de formação e
qualificação profissional têm o desenvolvimento rural sustentável
como norte. “A juventude é fundamental para o processo de inovação
tecnológica na agricultura familiar”, diz.
O MDA tem duas
políticas com foco na juventude. O Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) criou o Pronaf
Jovem, que atende interessados em desenvolver novas experiências
produtivas que promovam agregação de renda ou atividades exploradas
pela unidade familiar. E o Programa Nacional de Crédito Fundiário
(PNCF) desenvolveu o programa Nossa Primeira Terra, que já atendeu
20 mil jovens. Foram investidos R$ 512 milhões na compra de terras e
estão previstos cerca de R$ 380 milhões para a estruturação
produtiva destas novas unidades por meio do Pronaf.
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Resultados positivos
No semi-árido
baiano, a bem-sucedida experiência do Movimento de Organização
Comunitária (MOC) é um exemplo da força da participação dos jovens
no desenvolvimento integral, participativo e ecologicamente
sustentável. Sediado em Feira de Santana, o MOC forma os jovens na
perspectiva da agroecologia, o que os leva a entender a propriedade
agrícola como um sistema complexo, no qual ocorrem processos
ecológicos que devem contribuir para a produção com menos impactos
sociais e ambientais, e para a redução de insumos externos,
promovendo, assim, o desenvolvimento sustentável.
“Muitos
jovens multiplicadores têm se destacado, até mesmo como lideranças
nas organizações sociais, realizando projetos voluntários de
educação ambiental em suas comunidades, tendo a propriedade da sua
família como referência na transição agroecológica, além das ações
de mobilização, capacitação e visitas de intercâmbio que realizam
com as famílias que acompanham”, conta Renata Santana, coordenadora
do Subprograma de Assistência Técnica (Ater) do MOC.
No
município de Casimiro de Abreu (RJ), alguns programas voltados aos
jovens do meio rural exemplificam os resultados positivos de
políticas públicas com a participação da sociedade. Os programas
socioeducativos Jovem Agricultor Orgânico, Paisagista Mirim e
Ecoturismo Rural para Jovens, iniciativas da Secretaria Municipal de
Agricultura e Pesca, em parceria com a Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro, são realizados com recursos do Pronaf. Baseados na
agroecologia e no desenvolvimento rural sustentável, os programas
envolvem 80 jovens, entre 14 e 17 anos, filhos de agricultores
familiares e trabalhadores urbanos, matriculados na rede pública de
ensino.
Segundo Marcio Piratello, técnico da Secretaria de
Agricultura e Pesca de Casimiro de Abreu, os programas
socioeducativos são iniciativas pioneiras no estado, no que se
refere a sistemas agroflorestais. “A diversidade de espécies
cultivadas – alimentícias, florestais, ornamentais e medicinais –
contribui para a recuperação de áreas degradadas e a conservação das
florestas, além de ser um sistema de produção ecologicamente
correto”, explica Piratello. Ele conta que os programas incentivam
técnicas ambientalmente corretas e provocam reflexões sobre
sustentabilidade. Na prática, isso se deu com a mudança de paradigma
de muitas famílias de agricultores, cujos filhos participam dos
programas. “Eles passaram a praticar uma agricultura mais limpa,
mais saudável para a própria família e para o consumidor dos seus
produtos”.
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