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Respeito e competência.
Quando se conversa com jovens do ensino médio sobre o que admiram e
esperam de um professor, é difícil escapar dessas duas palavras.
Mais do que amizade, os estudantes querem possibilidade de diálogo –
mesmo quando suas atitudes parecem dizer exatamente o contrário. No
lugar de severidade e autoritarismo, esperam que o adulto na sala de
aula saiba impor o seu lugar sem se esquecer de que ali há pessoas
com particularidades, atravessando um período de desafios e
descobertas.
Não que os professores ignorem isso. A pesquisa
Onda Jovem na Escola – realizada pelo Instituto Estimar em novembro
de 2007, com discussões com grupos de professores, coordenadores e
diretores de ensino médio da rede pública da capital paulista e cujo
relatório está disponível neste site – indica que os profissionais
do ensino distinguem claramente as condições que envolvem a
juventude, desde as mudanças físicas ao ganho de autonomia que
acompanham a passagem do ensino fundamental para o médio. Percebem
também que devem se colocar como o adulto que estabelece limites e
compromissos, assim como aquele que apresenta uma proposta clara dos
conteúdos.
Mas em meio aos desafios impostos pelos próprios
alunos – com vivências muito diversificadas – e pelas condições
profissionais e sociais, dentro da escola e perante a sociedade,
encontrar o tom certo dessas relações todo o tempo é tarefa difícil.
Conforme sugere o resultado da pesquisa, isso significa criar
condições para que a escola exerça sua missão primordial como espaço
de educação e, ao mesmo tempo, como espaço de socialização da
juventude.
Os jovens, da rede pública ou particular, nos
grandes centros ou em cidades do interior, reconhecem que nem sempre
é fácil manter o controle da situação, tanto pelas características
de contestação e de afirmação inerentes à fase que estão vivendo,
como pela falta de apoio da escola e da sociedade ao professor. E se
frustram quando aqueles com quem deveriam aprender coisas sobre o
mundo sucumbem ao descaso, à agressividade e ao desequilíbrio.
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Na sala
de aula
“Um professor histérico, que grita muito,
acaba não impondo lei nenhuma: a pessoa vai querer tratar da mesma
forma e fica uma bagunça”, opina Tiago Jesuíno, de 15 anos, no
primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Barão de Monte
Santo, em Mococa, no interior de São Paulo. Tiago conta ter
estranhado muito a mudança do clima em sala de aula quando passou do
ensino fundamental para o ensino médio. “Na 8a série, todos
respeitavam uns aos outros. Agora, as pessoas só pensam em si.”
Entre as situações que já presenciou, Tiago cita desacato
para com o professor e desrespeito entre colegas, com brigas e mesmo
uso de palavras e gestos obscenos. “O professor muito ruim é aquele
que vê tudo aquilo acontecendo e não faz nada, finge que nada vê.”
Silmara Neves de Oliveira, de 17 anos, estudante do segundo
ano do ensino médio na Escola Estadual Professor Antônio José Leite,
em Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte da capital paulista, conta
que mesmo quem está interessado não consegue se concentrar quando o
professor ignora problemas de disciplina na sala. “Alguns jovens
acham que são os donos da verdade e querem se mostrar para os
outros”, afirma. “Falam no celular, ouvem MP3 com som alto, ficam
levantando do lugar e fazendo gracinha.”
Em sua opinião, o
professor deve tirar o aluno da sala no “primeiro momento”, depois
ter uma conversa séria e, caso não resolva, chamar os pais. Ela
considera essencial, no entanto, que o professor “saiba conversar” e
“se comunicar” com os alunos, sem chegar apenas cobrando. “Fica bem
mais agradável e ele consegue passar melhor a matéria.”
Aluna do primeiro ano do ensino médio em um renomado colégio
particular em Salvador, o Instituto Social da Bahia, Alice de Assis
Saes, de 15 anos, também acha que, em casos de indisciplina, o
melhor é tirar o aluno da sala. “Não precisa ficar retrucando nem
provocar, porque só gera mais confusão”, avalia. Ela diz, no
entanto, que no seu colégio em geral “rola um respeito pela figura
do professor”. “O professor deve mostrar que está ali para te
ajudar, que não é seu inimigo; mas também não precisa forçar uma
relação de amizade nem ficar falando gíria.”
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Desprestígio da escola
Na faixa
etária dos 14 anos até cerca de 18, 19 anos, dependendo do caso, os
alunos do ensino médio encontram-se numa fase de experimentação
intensa, com os hormônios se assentando, após a transformação
radical da puberdade, e o enorme desafio de entrar na vida social
portando uma identidade nova, diferente daquela que tinham na
infância.
Além dos desafios inerentes ao período pelo qual
passam os alunos, porém, os educadores de hoje enfrentam novos
complicadores, segundo Jorge Claudio Ribeiro, professor do
Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP,
especialista em educação e jovens. Primeiro, a “linguagem de
dispersão e fragmentação” promovida pela televisão, pelo computador
e mesmo pelo rádio. “O cérebro do jovem está domesticado para
assistir a segmentos de 5, 10 minutos; depois, ele quer intervalo
comercial, que não tem na sala de aula.”
Outro fator
agravante, diz, é que a escola já não ocupa o mesmo lugar de antes
na sociedade. “Hoje, em termos de prestígio, a escola é uma sombra
do que ela foi, uma espécie de ruína de um antigo palácio”, afirma.
“Exige-se a mesma coisa, mas as condições não são as mesmas.”
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Novos
ares
O aluno do terceiro ano do ensino médio Erick
Willen Pacheco Lima, de 16 anos, conta que, quando saiu de uma
escola particular para estudar na Escola Estadual Deputado Josué
Cláudio de Souza, no bairro de Coroado, na Zona Leste de Manaus, na
sexta série, tinha até medo de ser assaltado. “A escola tinha uma
fama terrível; mas não era tão ruim assim, e melhorou bastante
depois de 2002.” Acompanhando as mudanças geradas por uma
reformulação na diretoria, observou que mesmo os alunos adotaram um
comportamento mais favorável, estimulados pelas transformações que
incluíram reformas físicas no prédio da escola. “Ela não é perfeita,
mas se destaca em meio a muitas”, avalia.
Ele cita o Fórum
de Biologia, um tipo de feira de Ciências realizado anualmente com a
mobilização de toda a escola, como uma atividade que promove a boa
integração entre todos. Além disso, afirma que a maioria dos
professores não costuma faltar muito e os mais admirados são os que
“dominam o conteúdo e fazem de tudo para que a aula não seja
monótona, usando métodos novos e exemplos de nossa realidade. O
jovem gosta muito de conversar, de expor suas opiniões; o professor
tem de canalizar essas habilidades para que ele fale sobre o assunto
da aula”, diz ele.
O educador Marcos Pires Leodoro,
professor do Departamento de Metodologia do Ensino do Centro de
Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar), considera que trabalhar o lado contestatório do jovem,
potencializando sua capacidade imaginativa para pensar novas
possibilidades de mundo, pode ser uma forma para incrementar a
relação aluno/professor. “No entanto o grande desafio do professor é
contextualizar o ideal a partir do possível e, assim, fazer com que
os jovens possam intervir de fato na realidade, vivenciando a sua
densidade.”
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Compromisso real
Jorge Ribeiro, da
PUC-SP, percebe como fundamental na relação aluno/professor a
capacidade que o professor tem de formar vínculos com os alunos.
“Dou a isso o nome de amorosidade, ou seja, é ele estar aberto a uma
relação que não seja fria, distante nem anônima, se dispor a ser
gostado pelos alunos e manifestar compromisso.” Apresentar aulas
preparadas e corrigir exercícios a tempo, não falar ao celular na
sala de aula, e chegar pontualmente são exemplos desse compromisso
que os jovens esperam dos mestres.
“O que funciona é o
professor não ver o aluno apenas como alguém que ocupa uma cadeira,
mas vê-lo como uma pessoa, que tem a sua vida e é capaz de exercer
suas funções”, diz Zilza Thayane Matos, de 17 anos, no terceiro ano
da Escola Estadual Frei Ambrósio, no centro da cidade de Santarém,
no Pará. “O professor deve procurar se lembrar do que sentia quando
estava na cadeira do aluno, da pressão que ele sofria, das dúvidas.”
Para ela, a relação aluno/professor é tensa porque o adolescente
“está naquela fase de ter que decidir a sua vida para os próximos 50
anos”.
Em casos de indisciplina, afirma Leodoro, a primeira
coisa a considerar é se ela não responde a um possível autoritarismo
do professor ou da escola. “Descartada essa possibilidade, o
professor pode se encontrar diante de uma situação complexa do ponto
de vista social. Uma escola que não dialoga abertamente com a
sociedade e a comunidade tende a enfrentar maiores problemas na
resolução dos conflitos. O professor pode fazer pouco se tenta agir
individualmente, sem a colaboração de seus pares, dos pais e dos
outros alunos.”
A experiência, muitas vezes, pode ser um
fator positivo nesse jogo. Herman Messina, de 18 anos, no terceiro
ano da Escola Agrotécnica Federal de São João Evangelista, no
interior de Minas Gerais, diz que o relacionamento entre alunos e
professores costuma ser tranqüilo ali – mais ainda com os
professores antigos. “O professor mais novo sofre um pouquinho, o
pessoal acha que ele não tem aquela competência toda e às vezes toma
as rédeas”, afirma. O pior, na sua opinião, é quando o professor
“xinga” o aluno indisciplinado na frente da turma. “Mas normalmente
eles procuram mostrar o caminho mais pelo diálogo, o que acho bem
legal.”
Casos de indisciplina não são nada familiares a
Tiago Tavares Flórido, de 16 anos, desde a primeira série aluno do
ensino fundamental no Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro,
escola mais bem colocada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de
2007. “A pessoa está aqui para estudar e passar na carreira; não
acontece falta de respeito com o professor, o máximo que acontece é
conversa paralela.”
Ali, só estudam meninos e a disciplina é
rígida – mas não militar –, nas palavras de Tiago, atualmente no
terceiro ano do ensino médio. As aulas começam às 7h30, vão até as
16h30, e o aluno que chega três vezes atrasado no mês é suspenso por
três dias. Apesar da rigidez disciplinar e do volume de estudos, ele
considera a relação dos alunos com os professores “próxima”. “A
gente tem uma relação amigável, o diálogo direto sempre dá certo.”
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Diálogo
transformador
Uma diferença abissal em comparação à
experiência da amazonense da etnia terena Denize Modesto Vicente, de
16 anos, que cursa o primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual
Lino Villachá, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. “Fico
indignada com o tratamento que dão ao professor”, afirma. Ela conta
que recentemente um aluno agrediu “com palavras” uma professora, mas
o caso terminou bem porque a docente pediu, “sem xingamento”, que
ele se retirasse.
A própria Denize, porém, percebe que uma
boa conversa pode modificar o comportamento de um jovem. “Eu mesma
era agressiva com palavras até os 14 anos”, afirma ela, que mora em
uma comunidade indígena urbana de Campo Grande há cinco anos. “Teve
uma professora que me ajudou muito, conversava com a gente, com a
sala, dava uma aula de cidadania.”
Um bom começo é
reconhecer, respeitar e aprender com as diferenças entre alunos e
professores, e entre os próprios alunos. O professor pode até se
lembrar de como era quando ele era jovem – mas a experiência de ser
jovem, hoje, isso ele não tem.
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