Coração de estudante

Os alunos de ensino médio querem professores competentes e respeitosos, mas admitem as dificuldades de manter essa delicada relação

Frances Jones 

Matéria publicada na Edição 11 - junho / 2008 - Professores
 
 Respeito e competência. Quando se conversa com jovens do ensino médio sobre o que admiram e esperam de um professor, é difícil escapar dessas duas palavras. Mais do que amizade, os estudantes querem possibilidade de diálogo – mesmo quando suas atitudes parecem dizer exatamente o contrário. No lugar de severidade e autoritarismo, esperam que o adulto na sala de aula saiba impor o seu lugar sem se esquecer de que ali há pessoas com particularidades, atravessando um período de desafios e descobertas.

Não que os professores ignorem isso. A pesquisa Onda Jovem na Escola – realizada pelo Instituto Estimar em novembro de 2007, com discussões com grupos de professores, coordenadores e diretores de ensino médio da rede pública da capital paulista e cujo relatório está disponível neste site – indica que os profissionais do ensino distinguem claramente as condições que envolvem a juventude, desde as mudanças físicas ao ganho de autonomia que acompanham a passagem do ensino fundamental para o médio. Percebem também que devem se colocar como o adulto que estabelece limites e compromissos, assim como aquele que apresenta uma proposta clara dos conteúdos.

Mas em meio aos desafios impostos pelos próprios alunos – com vivências muito diversificadas – e pelas condições profissionais e sociais, dentro da escola e perante a sociedade, encontrar o tom certo dessas relações todo o tempo é tarefa difícil. Conforme sugere o resultado da pesquisa, isso significa criar condições para que a escola exerça sua missão primordial como espaço de educação e, ao mesmo tempo, como espaço de socialização da juventude.

Os jovens, da rede pública ou particular, nos grandes centros ou em cidades do interior, reconhecem que nem sempre é fácil manter o controle da situação, tanto pelas características de contestação e de afirmação inerentes à fase que estão vivendo, como pela falta de apoio da escola e da sociedade ao professor. E se frustram quando aqueles com quem deveriam aprender coisas sobre o mundo sucumbem ao descaso, à agressividade e ao desequilíbrio.
Na sala de aula

“Um professor histérico, que grita muito, acaba não impondo lei nenhuma: a pessoa vai querer tratar da mesma forma e fica uma bagunça”, opina Tiago Jesuíno, de 15 anos, no primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Barão de Monte Santo, em Mococa, no interior de São Paulo. Tiago conta ter estranhado muito a mudança do clima em sala de aula quando passou do ensino fundamental para o ensino médio. “Na 8a série, todos respeitavam uns aos outros. Agora, as pessoas só pensam em si.”

Entre as situações que já presenciou, Tiago cita desacato para com o professor e desrespeito entre colegas, com brigas e mesmo uso de palavras e gestos obscenos. “O professor muito ruim é aquele que vê tudo aquilo acontecendo e não faz nada, finge que nada vê.”

Silmara Neves de Oliveira, de 17 anos, estudante do segundo ano do ensino médio na Escola Estadual Professor Antônio José Leite, em Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte da capital paulista, conta que mesmo quem está interessado não consegue se concentrar quando o professor ignora problemas de disciplina na sala. “Alguns jovens acham que são os donos da verdade e querem se mostrar para os outros”, afirma. “Falam no celular, ouvem MP3 com som alto, ficam levantando do lugar e fazendo gracinha.”

Em sua opinião, o professor deve tirar o aluno da sala no “primeiro momento”, depois ter uma conversa séria e, caso não resolva, chamar os pais. Ela considera essencial, no entanto, que o professor “saiba conversar” e “se comunicar” com os alunos, sem chegar apenas cobrando. “Fica bem mais agradável e ele consegue passar melhor a matéria.”

Aluna do primeiro ano do ensino médio em um renomado colégio particular em Salvador, o Instituto Social da Bahia, Alice de Assis Saes, de 15 anos, também acha que, em casos de indisciplina, o melhor é tirar o aluno da sala. “Não precisa ficar retrucando nem provocar, porque só gera mais confusão”, avalia. Ela diz, no entanto, que no seu colégio em geral “rola um respeito pela figura do professor”. “O professor deve mostrar que está ali para te ajudar, que não é seu inimigo; mas também não precisa forçar uma relação de amizade nem ficar falando gíria.”
Desprestígio da escola

Na faixa etária dos 14 anos até cerca de 18, 19 anos, dependendo do caso, os alunos do ensino médio encontram-se numa fase de experimentação intensa, com os hormônios se assentando, após a transformação radical da puberdade, e o enorme desafio de entrar na vida social portando uma identidade nova, diferente daquela que tinham na infância.

Além dos desafios inerentes ao período pelo qual passam os alunos, porém, os educadores de hoje enfrentam novos complicadores, segundo Jorge Claudio Ribeiro, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP, especialista em educação e jovens. Primeiro, a “linguagem de dispersão e fragmentação” promovida pela televisão, pelo computador e mesmo pelo rádio. “O cérebro do jovem está domesticado para assistir a segmentos de 5, 10 minutos; depois, ele quer intervalo comercial, que não tem na sala de aula.”

Outro fator agravante, diz, é que a escola já não ocupa o mesmo lugar de antes na sociedade. “Hoje, em termos de prestígio, a escola é uma sombra do que ela foi, uma espécie de ruína de um antigo palácio”, afirma. “Exige-se a mesma coisa, mas as condições não são as mesmas.”
Novos ares

O aluno do terceiro ano do ensino médio Erick Willen Pacheco Lima, de 16 anos, conta que, quando saiu de uma escola particular para estudar na Escola Estadual Deputado Josué Cláudio de Souza, no bairro de Coroado, na Zona Leste de Manaus, na sexta série, tinha até medo de ser assaltado. “A escola tinha uma fama terrível; mas não era tão ruim assim, e melhorou bastante depois de 2002.” Acompanhando as mudanças geradas por uma reformulação na diretoria, observou que mesmo os alunos adotaram um comportamento mais favorável, estimulados pelas transformações que incluíram reformas físicas no prédio da escola. “Ela não é perfeita, mas se destaca em meio a muitas”, avalia.

Ele cita o Fórum de Biologia, um tipo de feira de Ciências realizado anualmente com a mobilização de toda a escola, como uma atividade que promove a boa integração entre todos. Além disso, afirma que a maioria dos professores não costuma faltar muito e os mais admirados são os que “dominam o conteúdo e fazem de tudo para que a aula não seja monótona, usando métodos novos e exemplos de nossa realidade. O jovem gosta muito de conversar, de expor suas opiniões; o professor tem de canalizar essas habilidades para que ele fale sobre o assunto da aula”, diz ele.

O educador Marcos Pires Leodoro, professor do Departamento de Metodologia do Ensino do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), considera que trabalhar o lado contestatório do jovem, potencializando sua capacidade imaginativa para pensar novas possibilidades de mundo, pode ser uma forma para incrementar a relação aluno/professor. “No entanto o grande desafio do professor é contextualizar o ideal a partir do possível e, assim, fazer com que os jovens possam intervir de fato na realidade, vivenciando a sua densidade.”
Compromisso real

Jorge Ribeiro, da PUC-SP, percebe como fundamental na relação aluno/professor a capacidade que o professor tem de formar vínculos com os alunos. “Dou a isso o nome de amorosidade, ou seja, é ele estar aberto a uma relação que não seja fria, distante nem anônima, se dispor a ser gostado pelos alunos e manifestar compromisso.” Apresentar aulas preparadas e corrigir exercícios a tempo, não falar ao celular na sala de aula, e chegar pontualmente são exemplos desse compromisso que os jovens esperam dos mestres.

“O que funciona é o professor não ver o aluno apenas como alguém que ocupa uma cadeira, mas vê-lo como uma pessoa, que tem a sua vida e é capaz de exercer suas funções”, diz Zilza Thayane Matos, de 17 anos, no terceiro ano da Escola Estadual Frei Ambrósio, no centro da cidade de Santarém, no Pará. “O professor deve procurar se lembrar do que sentia quando estava na cadeira do aluno, da pressão que ele sofria, das dúvidas.” Para ela, a relação aluno/professor é tensa porque o adolescente “está naquela fase de ter que decidir a sua vida para os próximos 50 anos”.

Em casos de indisciplina, afirma Leodoro, a primeira coisa a considerar é se ela não responde a um possível autoritarismo do professor ou da escola. “Descartada essa possibilidade, o professor pode se encontrar diante de uma situação complexa do ponto de vista social. Uma escola que não dialoga abertamente com a sociedade e a comunidade tende a enfrentar maiores problemas na resolução dos conflitos. O professor pode fazer pouco se tenta agir individualmente, sem a colaboração de seus pares, dos pais e dos outros alunos.”

A experiência, muitas vezes, pode ser um fator positivo nesse jogo. Herman Messina, de 18 anos, no terceiro ano da Escola Agrotécnica Federal de São João Evangelista, no interior de Minas Gerais, diz que o relacionamento entre alunos e professores costuma ser tranqüilo ali – mais ainda com os professores antigos. “O professor mais novo sofre um pouquinho, o pessoal acha que ele não tem aquela competência toda e às vezes toma as rédeas”, afirma. O pior, na sua opinião, é quando o professor “xinga” o aluno indisciplinado na frente da turma. “Mas normalmente eles procuram mostrar o caminho mais pelo diálogo, o que acho bem legal.”

Casos de indisciplina não são nada familiares a Tiago Tavares Flórido, de 16 anos, desde a primeira série aluno do ensino fundamental no Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro, escola mais bem colocada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2007. “A pessoa está aqui para estudar e passar na carreira; não acontece falta de respeito com o professor, o máximo que acontece é conversa paralela.”

Ali, só estudam meninos e a disciplina é rígida – mas não militar –, nas palavras de Tiago, atualmente no terceiro ano do ensino médio. As aulas começam às 7h30, vão até as 16h30, e o aluno que chega três vezes atrasado no mês é suspenso por três dias. Apesar da rigidez disciplinar e do volume de estudos, ele considera a relação dos alunos com os professores “próxima”. “A gente tem uma relação amigável, o diálogo direto sempre dá certo.”
Diálogo transformador

Uma diferença abissal em comparação à experiência da amazonense da etnia terena Denize Modesto Vicente, de 16 anos, que cursa o primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Lino Villachá, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. “Fico indignada com o tratamento que dão ao professor”, afirma. Ela conta que recentemente um aluno agrediu “com palavras” uma professora, mas o caso terminou bem porque a docente pediu, “sem xingamento”, que ele se retirasse.

A própria Denize, porém, percebe que uma boa conversa pode modificar o comportamento de um jovem. “Eu mesma era agressiva com palavras até os 14 anos”, afirma ela, que mora em uma comunidade indígena urbana de Campo Grande há cinco anos. “Teve uma professora que me ajudou muito, conversava com a gente, com a sala, dava uma aula de cidadania.”

Um bom começo é reconhecer, respeitar e aprender com as diferenças entre alunos e professores, e entre os próprios alunos. O professor pode até se lembrar de como era quando ele era jovem – mas a experiência de ser jovem, hoje, isso ele não tem.
Fuente: http://www.ondajovem.com.br/materiadet.asp?idtexto=334