|
Editorial
Fim de ano, tempo de olhar para os meses que passaram e
para os que estão por vir. 2005 foi movimentado e marcante
para juventude brasileira e a política nacional em geral, com
passos importantes sendo firmados e tempos bem
turbulentos.
Seguindo essa idéia, o Falando em Política
traz uma retrospectiva de 2005, com os principais momentos,
eventos e acontecimentos na área de política de juventude.
Secretaria e Conselho Nacional de Juventude, Pro-Jovem, Plano
Nacional de Juventude... As mudanças em 2005 trazem um 2006
promissor para os e as jovens do Brasil, além de ser ano
eleitoral!
Nesta edição de fim de ano você também vai
poder conhecer melhor a pesquisa "Juventude brasileira e
democracia: participação, esferas e políticas públicas",
do IBASE e do Instituto Pólis, que mostra que os jovens querem
participar, mesmo com a tão difundida idéia de que politica é
isso e ninguém muda nada.
Exemplo disso é a VI
Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente,
que foi movimentada e está relatada nessa edição. Algumas
criticas, algumas proposições e muita vontade de apropriação
de espaços - tudo isso em 4 dias de grupos de trabalhos,
painéis e debates.
Aproveite, faça também a sua
avaliação de fim de ano e as apostas para 2006!
A
equipe do Falando em Política deseja a tod@s um 2006
tagarelante. Que todos falemos muito em política!
Grupo Interagir
Lembranças de 2005
Mal acordei, e já fui logo me preparando para o V Fórum Social
Mundial. Afinal, teriam mais de 80 oficinas voltadas para
o tema juventude. O Fórum
Nacional de Organizações e Movimentos Juvenis fez grande
reunião por lá. O Projeto
Juventude apresentou seus trabalhos finais em importantes
painéis. Todos os Hip Hops se encontraram por lá também.
Organizações como a Academia de Desenvolvimento
Social, Grupo
Interagir, Instituto do Baixo Sul da Bahia e a Global Youth Action Network se
articularam previamente para apresentar atividades encadeadas.
E ainda aproveitei, é claro, toda a programação alternativa do
Acampamento Mundial
da Juventude. Ótimo começo de ano!
Depois de Porto Alegre, corri para Brasília. Era o
lançamento oficial da Secretaria
Nacional de Juventude, no começo de fevereiro. Numa
cerimônia bem animada no Palácio
do Planalto, mais de 500 jovens presenciaram esse alegre
momento histórico. Nenhum governo anterior havia implementado
a idéia de se ter um órgão específico para tratar de
juventude. Daí em diante outras 2 idéias tomaram corpo: o Conselho
Nacional de Juventude e o PRO-JOVEM.
Mais alguns meses se passam, e aí se vai o tempo de
articulação entre movimentos para conquistarem seus espaços
dentro do Conselho. Será que passa pela cabeça que esse espaço
não é deles? É para eles estarem lá, pensando em quem não
está. Talvez por não perceberem isso que alguns brigaram com
outros, ficaram de mal. Mas eu continuo achando que outro
mundo é possível.
E aí chega a hora de tirar mais acordos do papel. O Plano
Mundial de Ação para Juventude da ONU fez 10 anos. E o
seu manual
de acompanhamento corre pelo país, ajudando jovens a
monitorar políticas que lhes interessem. Essa turma que não
perde uma oportunidade de falar em política nem
teve tempo de sentir saudade dos encontros de 2004. Para
entender isso tudo que estava acontecendo, muita gente foi
participar de seminários e cursos de formação política. Mais
vozes jovens foram ouvidas,
mais diálogos de organizações aconteceram, as Metas do
Milênio ganharam um toque latino-americano e mais Fóruns se
articularam.
Para matar a saudade dos inesquecíveis momentos das
conferências estaduais de juventude, participamos este ano das
audiências públicas sobre o Plano
Nacional de Juventude. E cada encontro deveria tirar 13
delegados para participar depois do Seminário Nacional em
Brasília. Tira-se delegado para Seminário? Como eles chegam
até Brasília? O que sair do Seminário vai realmente
influenciar a redação final do Plano? Parece que ninguém
pensou nisso antes. Até março, a data do Seminário Nacional, a
Comissão vai ter que descobrir essas
respostas.
Agora o PRO-JOVEM já estava funcionando também. Pelo
menos em algumas capitais. Outras nem preencheram o número
total de vagas abertas. Outras não queriam fazer propaganda de
programa do Governo Federal porque seu partido é de outra cor.
Mas vamos que vamos, porque muitos jovens têm nesse programa
quase que sua última esperança de avançar nos estudos.
Enquanto isso, focos de corrupção
eram descobertos no governo. Era preciso parar um pouco,
respirar fundo, e tentar entender o que estava acontecendo.
Com nossos sonhos e com as pessoas que se comprometeram a
concretizá-los. E com as
estruturas e pessoas que tentam impedi-los.
Outro susto veio logo em seguida: a opção popular que
rejeitou a proposta de uma sociedade sem armas, feita em referendo.
É, tem muita coisa errada ainda com o mundo. Para continuar
acreditando que outro mundo é realmente possível, que tal
fazermos de 2006 um ano especial, em que todos esses processos
já desencadeados comecem a render melhores frutos? E para que
tenhamos uma participação efetiva de jovens e grupos juvenis,
é necessário estarmos dispostos a criarmos ou reinvindicarmos
as condições necessárias para tal. Para criarmos essas
condições, é preciso que estejamos sensíveis aos giros do
mundo, percebendo atores e a riqueza de seus movimentos.
Dentro dos trâmites legislativos, onde se encontram o Estatuto
e o Plano Nacional de juventude. Na agenda eleitoral, onde
vamos decidir aque política nosso presidente e governador vão
implementar. Nas nossas organizações e movimentos.
Naturalmente, 2006 já será um ano especial, por ser ano
eleitoral. Ano em que geralmente se falar muito em
política. Vamos encontrar um jeito diferente de encarar
essa conversa?
VI Conferência Nacional dos
Direitos da Criança e do Adolescente
A VI
Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente aconteceu em Brasília entre os dias 12 e 15 de
dezembro. Prevista para mais de mil delegados do Brasil
inteiro, a Conferência contou com um número menor do que o
previsto, mas nem por isso menos disposto a participar
efetivamente da conferência, colocando suas pautas na mesa.
Com a proposta de discutir o Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA) e a sua participação
social em seu cumprimento, a Conferência foi organizada pelo
Conselho Nacional
dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e
contou ainda com a participação de Conselheiros Tutelares e de
Direitos, representantes de ministros, políticos que
participam dos Conselhos Estaduais e Municipais.
Jovens de todo o Brasil
estiveram presentes, proporcionando uma troca cultural rica e
proveitosa, além de semear conhecimento sobre diferentes
realidades. Essa troca pôde ser observada nas moções
propostas, que envolveram diversos aspectos referentes à
realidade das crianças e adolescentes pelo Brasil
afora.
Os delegados adolescentes e
adultos participaram também de painéis sobre formulação de uma
política para a criança e o adolescente, diversidade e
igualdade e acompanhamento do orçamento público. Depois dos
debates as discussões se completavam nos grupos de trabalho,
que se dividiam por sub-temas de cada questão.
A Conferência representa um
importante espaço, mas seu principal
tema - "Participação não tem idade" - mostrou-se insípido
ao longo dos quatro dias de trabalho intenso. O alto número de
adultos, poucos adolescentes e nenhuma criança fez com que o
seu slogan se perdesse no contexto das atividades.
Ainda assim, a vontade de
participar e de se apropriar do espaço era forte nos
adolescentes. Muitas articulações foram feitas nos intervalos
e até mesmo nos momentos de festa: uma das reuniões dos
adolescentes aconteceu simultaneamente à apresentação cultural
para os participantes. A reunião foi organizada para discutir
a confecção de uma carta (confira
a íntegra no link), com a proposta de uma conferência
lúdica e a formação de uma rede nacional de crianças e
adolescentes.
Essa falta de espaços propícios
à participação foi a principal crítica feita à Conferência. Os
adolescentes questionaram o conceito de protagonismo juvenil
vivido, exigindo que a participação fosse mais efetiva,
legitimando assim a proposta da Conferência.
"Não dá para trabalhar
dissolvido; é preciso que o espaço proporcione a interação
entre os participantes", destacou Abner, de 17 anos,
representante de São Paulo, que avalia ainda que todos que
estavam na Conferência lutavam pelo mesmo ideal, mas não
tinham capacidade de criar relações, de interagir para unir
esforços.
A realização da Conferência é
bienal, e a próxima está programada pra ser realizada em
2007.
Pesquisa: Juventude brasileira
e democracia: participação, esferas e políticas públicas
Na linha de pesquisas iniciada
em 1996 pela Fundação Perseu Abramo, investigando o imaginário
e a prática jovem relacionados à política, várias pesquisas
foram feitas de lá para cá. A mais recente é a pesquisa de
grupos de diálogo sobre a visão da juventude sobre democracia
e política, coordenadas pelo IBASE e pelo Instituto PÓLIS, que
ouviu 8 mil jovens de 15 a 24 anos em sete regiões
metropolitanas do Brasil e no Distrito Federal, entre outubro
de 2004 e maio de 2005.
Com metodologia diferenciada, a
pesquisa utilizou não só questionários como também grupos de
diálogo, onde os jovens escolhiam 1 entre 3 caminhos
apresentados:
Caminho 1: "Eu me engajo e tenho
uma bandeira de luta": acabou englobando os jovens de
institutições, como ONGs, Partidos Políticos, Associações
Estudantis e Sindicatos. Foi o menos escolhido, mas era visto
por todos como o mais eficiente para alcançar os objetivos, em
especial pela sua relação mais fácil com governos. O grande
obstáculo para se participar dessas entidades era a falta de
confiança em agentes políticos TRADICIONAIS - não é em
qualquer político ou em qualquer política, há esperança ainda
em alternativas.
Caminho 2: "Eu sou voluntário e
faço a diferença": ficou marcado como o de grupos de bairro,
de trabalho comunitário. Era expresso o desejo de se envolver
em atividades voluntárias coletivas, que não precisam de
grandes burocracias para acontecer, apesar de serem
reconhecidas como menos eficientes. Foi o de maior
adesão.
Caminho 3: "Eu e meu grupo, nós
damos o recado": Geralmente grupos
culturais, religiosos, de comunicação estavam aqui, com
a adesão massiva pelos grupos culturais. Foi colocado que
esses movimentos eram tão bons de se participar que os jovens
começavam a abandonar a escola para participar mais, sendo os
grupos um ponto de referência para a socialização muito mais
forte e atrativa.
Dentro desses grupos, foram
conversando sobre suas percepções políticas. Algunss dados que
chamam a atenção:
- 28% dos jovens brasileiros
estão engajados em ações de participação coletiva.
- Grande parte se interessa pela
política e quer se envolver, mas considera que faltam canais
adequados de participação.
- Índice de participação social
e descrença nos políticos na capital do país é dos menores
entre as regiões pesquisadas.
Recados que deixaram para os
políticos:
- que sejam governantes mais
responsáveis com a população
- que renovem as formas de se
fazer política
Além do relatório final, foram
elaboradores relatórios contendo os levantamentos em nível
regional, que estão sendo encaminhados às administrações
estaduais e municipais.
|