Brasília, domingo, 25 de dezembro de 2005.

Olá daniel, confira nesse número:

 

Editorial

Fim de ano, tempo de olhar para os meses que passaram e para os que estão por vir. 2005 foi movimentado e marcante para juventude brasileira e a política nacional em geral, com passos importantes sendo firmados e tempos bem turbulentos.

Seguindo essa idéia, o Falando em Política traz uma retrospectiva de 2005, com os principais momentos, eventos e acontecimentos na área de política de juventude. Secretaria e Conselho Nacional de Juventude, Pro-Jovem, Plano Nacional de Juventude... As mudanças em 2005 trazem um 2006 promissor para os e as jovens do Brasil, além de ser ano eleitoral!

Nesta edição de fim de ano você também vai poder conhecer melhor a pesquisa "Juventude brasileira e democracia: participação, esferas e
políticas públicas", do IBASE e do Instituto Pólis, que mostra que os jovens querem participar, mesmo com a tão difundida idéia de que politica é isso e ninguém muda nada.

Exemplo disso é a VI Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que foi movimentada e está relatada nessa edição. Algumas criticas, algumas proposições e muita vontade de apropriação de espaços - tudo isso em 4 dias de grupos de trabalhos, painéis e debates.

Aproveite, faça também a sua avaliação de fim de ano e as apostas para 2006!

A equipe do Falando em Política deseja a tod@s um 2006 tagarelante. Que todos falemos muito em política!

Grupo Interagir


Lembranças de 2005

Mal acordei, e já fui logo me preparando para o V Fórum Social Mundial. Afinal, teriam mais de 80 oficinas voltadas para o tema juventude. O Fórum Nacional de Organizações e Movimentos Juvenis fez grande reunião por lá. O Projeto Juventude apresentou seus trabalhos finais em importantes painéis. Todos os Hip Hops se encontraram por lá também. Organizações como a Academia de Desenvolvimento Social, Grupo Interagir, Instituto do Baixo Sul da Bahia e a Global Youth Action Network se articularam previamente para apresentar atividades encadeadas. E ainda aproveitei, é claro, toda a programação alternativa do Acampamento Mundial da Juventude. Ótimo começo de ano!

Depois de Porto Alegre, corri para Brasília. Era o lançamento oficial da Secretaria Nacional de Juventude, no começo de fevereiro. Numa cerimônia bem animada no Palácio do Planalto, mais de 500 jovens presenciaram esse alegre momento histórico. Nenhum governo anterior havia implementado a idéia de se ter um órgão específico para tratar de juventude. Daí em diante outras 2 idéias tomaram corpo: o Conselho Nacional de Juventude e o PRO-JOVEM.

Mais alguns meses se passam, e aí se vai o tempo de articulação entre movimentos para conquistarem seus espaços dentro do Conselho. Será que passa pela cabeça que esse espaço não é deles? É para eles estarem lá, pensando em quem não está. Talvez por não perceberem isso que alguns brigaram com outros, ficaram de mal. Mas eu continuo achando que outro mundo é possível.

E aí chega a hora de tirar mais acordos do papel. O Plano Mundial de Ação para Juventude da ONU fez 10 anos. E o seu manual de acompanhamento corre pelo país, ajudando jovens a monitorar políticas que lhes interessem. Essa turma que não perde uma oportunidade de falar em política nem teve tempo de sentir saudade dos encontros de 2004. Para entender isso tudo que estava acontecendo, muita gente foi participar de seminários e cursos de formação política. Mais vozes jovens foram ouvidas, mais diálogos de organizações aconteceram, as Metas do Milênio ganharam um toque latino-americano e mais Fóruns se articularam.

Para matar a saudade dos inesquecíveis momentos das conferências estaduais de juventude, participamos este ano das audiências públicas sobre o Plano Nacional de Juventude. E cada encontro deveria tirar 13 delegados para participar depois do Seminário Nacional em Brasília. Tira-se delegado para Seminário? Como eles chegam até Brasília? O que sair do Seminário vai realmente influenciar a redação final do Plano? Parece que ninguém pensou nisso antes. Até março, a data do Seminário Nacional, a Comissão vai ter que descobrir essas respostas.

Agora o PRO-JOVEM já estava funcionando também. Pelo menos em algumas capitais. Outras nem preencheram o número total de vagas abertas. Outras não queriam fazer propaganda de programa do Governo Federal porque seu partido é de outra cor. Mas vamos que vamos, porque muitos jovens têm nesse programa quase que sua última esperança de avançar nos estudos.

Enquanto isso, focos de corrupção eram descobertos no governo. Era preciso parar um pouco, respirar fundo, e tentar entender o que estava acontecendo. Com nossos sonhos e com as pessoas que se comprometeram a concretizá-los. E com as estruturas e pessoas que tentam impedi-los.

Outro susto veio logo em seguida: a opção popular que rejeitou a proposta de uma sociedade sem armas, feita em referendo. É, tem muita coisa errada ainda com o mundo. Para continuar acreditando que outro mundo é realmente possível, que tal fazermos de 2006 um ano especial, em que todos esses processos já desencadeados comecem a render melhores frutos? E para que tenhamos uma participação efetiva de jovens e grupos juvenis, é necessário estarmos dispostos a criarmos ou reinvindicarmos as condições necessárias para tal. Para criarmos essas condições, é preciso que estejamos sensíveis aos giros do mundo, percebendo atores e a riqueza de seus movimentos. Dentro dos trâmites legislativos, onde se encontram o Estatuto e o Plano Nacional de juventude. Na agenda eleitoral, onde vamos decidir aque política nosso presidente e governador vão implementar. Nas nossas organizações e movimentos.

Naturalmente, 2006 já será um ano especial, por ser ano eleitoral. Ano em que geralmente se falar muito em política. Vamos encontrar um jeito diferente de encarar essa conversa?


VI Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente

A VI Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente aconteceu em Brasília entre os dias 12 e 15 de dezembro. Prevista para mais de mil delegados do Brasil inteiro, a Conferência contou com um número menor do que o previsto, mas nem por isso menos disposto a participar efetivamente da conferência, colocando suas pautas na mesa.

Com a proposta de discutir o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a sua participação social em seu cumprimento, a Conferência foi organizada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e contou ainda com a participação de Conselheiros Tutelares e de Direitos, representantes de ministros, políticos que participam dos Conselhos Estaduais e Municipais.

Jovens de todo o Brasil estiveram presentes, proporcionando uma troca cultural rica e proveitosa, além de semear conhecimento sobre diferentes realidades. Essa troca pôde ser observada nas moções propostas, que envolveram diversos aspectos referentes à realidade das crianças e adolescentes pelo Brasil afora.

Os delegados adolescentes e adultos participaram também de painéis sobre formulação de uma política para a criança e o adolescente, diversidade e igualdade e acompanhamento do orçamento público. Depois dos debates as discussões se completavam nos grupos de trabalho, que se dividiam por sub-temas de cada questão.

A Conferência representa um importante espaço, mas seu principal tema - "Participação não tem idade" - mostrou-se insípido ao longo dos quatro dias de trabalho intenso. O alto número de adultos, poucos adolescentes e nenhuma criança fez com que o seu slogan se perdesse no contexto das atividades.

Ainda assim, a vontade de participar e de se apropriar do espaço era forte nos adolescentes. Muitas articulações foram feitas nos intervalos e até mesmo nos momentos de festa: uma das reuniões dos adolescentes aconteceu simultaneamente à apresentação cultural para os participantes. A reunião foi organizada para discutir a confecção de uma carta (confira a íntegra no link), com a proposta de uma conferência lúdica e a formação de uma rede nacional de crianças e adolescentes.

Essa falta de espaços propícios à participação foi a principal crítica feita à Conferência. Os adolescentes questionaram o conceito de protagonismo juvenil vivido, exigindo que a participação fosse mais efetiva, legitimando assim a proposta da Conferência.

"Não dá para trabalhar dissolvido; é preciso que o espaço proporcione a interação entre os participantes", destacou Abner, de 17 anos, representante de São Paulo, que avalia ainda que todos que estavam na Conferência lutavam pelo mesmo ideal, mas não tinham capacidade de criar relações, de interagir para unir esforços.

A realização da Conferência é bienal, e a próxima está programada pra ser realizada em 2007.


Pesquisa: Juventude brasileira e democracia: participação, esferas e políticas públicas

Na linha de pesquisas iniciada em 1996 pela Fundação Perseu Abramo, investigando o imaginário e a prática jovem relacionados à política, várias pesquisas foram feitas de lá para cá. A mais recente é a pesquisa de grupos de diálogo sobre a visão da juventude sobre democracia e política, coordenadas pelo IBASE e pelo Instituto PÓLIS, que ouviu 8 mil jovens de 15 a 24 anos em sete regiões metropolitanas do Brasil e no Distrito Federal, entre outubro de 2004 e maio de 2005.

Com metodologia diferenciada, a pesquisa utilizou não só questionários como também grupos de diálogo, onde os jovens escolhiam 1 entre 3 caminhos apresentados:

Caminho 1: "Eu me engajo e tenho uma bandeira de luta": acabou englobando os jovens de institutições, como ONGs, Partidos Políticos, Associações Estudantis e Sindicatos. Foi o menos escolhido, mas era visto por todos como o mais eficiente para alcançar os objetivos, em especial pela sua relação mais fácil com governos. O grande obstáculo para se participar dessas entidades era a falta de confiança em agentes políticos TRADICIONAIS - não é em qualquer político ou em qualquer política, há esperança ainda em alternativas.

Caminho 2: "Eu sou voluntário e faço a diferença": ficou marcado como o de grupos de bairro, de trabalho comunitário. Era expresso o desejo de se envolver em atividades voluntárias coletivas, que não precisam de grandes burocracias para acontecer, apesar de serem reconhecidas como menos eficientes. Foi o de maior adesão.

Caminho 3: "Eu e meu grupo, nós damos o recado": Geralmente grupos culturais, religiosos, de comunicação estavam aqui, com a adesão massiva pelos grupos culturais. Foi colocado que esses movimentos eram tão bons de se participar que os jovens começavam a abandonar a escola para participar mais, sendo os grupos um ponto de referência para a socialização muito mais forte e atrativa.

Dentro desses grupos, foram conversando sobre suas percepções políticas. Algunss dados que chamam a atenção:

- 28% dos jovens brasileiros estão engajados em ações de participação coletiva.

- Grande parte se interessa pela política e quer se envolver, mas considera que faltam canais adequados de participação.

- Índice de participação social e descrença nos políticos na capital do país é dos menores entre as regiões pesquisadas.

Recados que deixaram para os políticos:

- que sejam governantes mais responsáveis com a população

- que renovem as formas de se fazer política

Além do relatório final, foram elaboradores relatórios contendo os levantamentos em nível regional, que estão sendo encaminhados às administrações estaduais e municipais.


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