Brasília, sábado, 8 de abril de 2006.

 

Editorial

Essa edição é especial para o nosso leitor assíduo do Falando em Política, pois o que você irá encontrar nessa edição não são notícias como estamos acostumados a ler nos meios de comunicação.

Com a idéia de expressar nossas percepções sobre o Seminário do Plano Nacional de Juventude, decidimos escrever as páginas do diário de uma personagem fictícia.

Assim, esperamos levar o leitor por um passeio na Câmara durante os dias em que ocorreu o seminário, colhendo falas que observamos e acontecimentos ímpares que presenciamos. Porém, se a personagem é fictícia, os fatos relatados, por outro lado, não são bem ficção. Escrevendo páginas de diário, exploramos a liberdade de fazer análises e sermos opinativos. O relato não prima pela neutralidade e objetividade. Pelo contrário, está carregado de adjetivos e é sim parcial diante dos acontecimentos presenciados por suas autoras. Um dos insumos para esse texto foi a pesquisa paralela que realizamos entre os participantes do encontro, onde expressaram suas opiniões e registraram seus relatos. Em breve teremos a sistematização completa da pesquisa e a divulgamos na próxima edição.

Por fim, cabe ressalta que essa não é a opinião e posicionamento do Falando em Política, mas das autoras do texto. Portanto, pedimos para que outros e outras jovens nos enviem relatos de suas experiências durante o Seminário do Plano Nacional de Juventude.

Para satisfazer a curiosidade sobre os momentos que não são facilmente descritos com palavras, colocamos a cobertura fotográfica à disposição de vocês. Para acessá-la, clique aqui.


Pesquisa com Leitores e Errata

O site e o boletim do Falando em Política estão passando por algumas transformações. Pretendemos torná-los mais interativos e interessantes para nossos leitores. Por isso, precisamos saber quem é você, o leitor do Falando em Política. Pedimos que você separe alguns minutos do seu dia para responder nossa pesquisa. Sortearemos um brinde especial do Falando em Política para os que responderem nossas perguntas.

Para responder a pesquisa, clique aqui.

Errata: No último boletim do Falando em Política o assunto do email enviado aos leitores saiu “Falando em Polícia” quando deveria ter sido “Falando em Política”. Agradecemos ao leitores que fizeram questão de lembrar que questões de polícia são uma coisa, e questões de política ainda são outra.


Chegando em Brasília – quarta-feira

Lá fomos nós subir no ônibus para ir rumo a Brasília. Éramos os delegados tirados no encontro estadual sobre o Plano Nacional de Juventude. No nosso estado foi difícil conseguir passagem para Brasília. Os delegados ligados ao mandato do deputado que organizou a audiência estadual tiveram mais facilidades. Nós tivemos que buscar apoio numa ONG de outro estado, e o ônibus que trouxe os delegados de lá, no caminho passou na nossa cidade. No nosso estado a audiência estadual teve muita disputa entre grupos por espaço, mas comparado às histórias que ouvíamos de São Paulo, Rio e Amazonas, achamos até que nem tinha sido tão ruim assim.

Depois de algumas horas, chegamos a Brasília e fomos para o Hotel combinado com a Comissão, onde ficariam os delegados e convidados. Já tinha ido para Brasília uma vez, participar de outro encontro, a Conferência Nacional de Juventude. A experiência não foi das melhores. Grupos de trabalho que não aconteceram, nada de facilitação de grupos e embates agressivos.

Bem, já era tarde, mas lá estávamos, na recepção do hotel. O Conselho Nacional de Juventude havia decidido não participar. Mesmo assim, alguns conselheiros ainda apareceram na esperança de tentar contribuir de alguma maneira. Estávamos todos juntos, esperando dar a hora da reunião das organizações da sociedade civil, que havíamos planejado por e-mail. Enquanto esperávamos os colegas de outros estados, chega o deputado relator, Reginaldo Lopes (PT/MG), e conversa sobre as alterações que serão feitas em cima da hora, na programação do evento. O folder que será entregue no credenciamento estará desatualizado quando o recebermos. O deputado falou que para não dizerem que não dialogou com os movimentos sociais, veio para anunciar a criação de um novo GT. Em vez de 13, serão 14 grupos. Esse grupo 14 será para colher as avaliações e sugestões sobre o processo do seminário para um próximo.

Já na reunião, há 3 itens de pauta: Falar sobre o grupo recém criado de metodologia, relatar casos das etapas estaduais e falar das cartas a serem entregues à Comissão. Existe uma do Fórum Nacional de Organizações e Movimentos Juvenis e outra chamada de Carta Manifesto de São Paulo . Aliás, parece que no total existem 13 cartas circulando pelo encontro, criticando a forma como as audiências estaduais foram realizadas. A reunião começa, as pessoas se inscrevem para falar e falam. É tarde, quase meia noite, e o Deputado relator, que estava numa reunião do lado com as juventudes partidárias, aparece para tirar algumas dúvidas sobre o encontro. Vem à tona o impasse em relação aos delegados não oficias, os que foram tirados em processos paralelos. É relatado o caso específico do Amazonas e São Paulo, e o deputado afirma que não serão reconhecidos como delegados, no máximo ouvintes, se o espaço comportar a presença deles. Afirma também que isso não é tão importante, pois não haverá votação no encontro, tudo será consensuado. Lamartine Babo, do CONJUV, lembra que ao menos 40 conselheiros não foram, mas sua presença já estava prevista. Ou seja, essa turma dos processos paralelos pode ficar com essas vagas.

Enquanto isso, as juventudes partidárias estavam com o Deputado Reginaldo Lopes para definir a condução dos grupos durante o Seminário. PCdoB, PMDB, PSB, PSDB e PT esboçavam alguma crítica ao processo. Mas será que esboçaram alguma auto-crítica?


Começa o Seminário – quinta-feira

Começou o credenciamento. Não há a menor certeza sobre quem será considerado delegado, quem será convidado e se alguém será barrado. Por fim, todos entram. Dentro da pasta do encontro, para surpresa de todos, não há nem a sistematização das contribuições estaduais e nem o texto com a proposta de substitutivo do relator.

Começou a abertura com o presidente da Comissão, Lobbe Neto (PSDB/SP), o relator Reginaldo Lopes (PT/PT) e a Secretária Adjunta da Secretaria Nacional da Juventude, Regina Novaes. O Auditório Nereu Ramos, o maior da Câmara, estava cheio. Enquanto o relator, Reginaldo Lopes, falava o que esperava do encontro, lá do fundo, alguém gritou: “Mostra o substitutivo!” Quem teve mais sorte com a platéia foi a Regina Novaes, que conseguiu acalmar os ânimos, e pediu para que os jovens escutem outros jovens nesse processo, sem se fechar a suas bandeiras exclusivas.


abertura


Depois do almoço, dentro dos grupos de trabalho, volta a polêmica sobre os delegados oficiais e as decisões. Se o consenso não acontecer naturalmente, é necessário forçar a unanimidade. Logo, se recorreria ao voto. E aí, quem teria direito ao voto? Apenas um delegado por estado? Vários estados tinham 2 delegados, pois não fizeram a etapa estadual de uma só vez.

Esse não foi a único ponto complicado para os grupos. Alguns ficaram perdidos sem saber como começar. Demoraram para decidir a dinâmica, ler as dezenas de propostas entregues no dia e começar a priorizar. A vontade dos participantes de expressar a insatisfação quanto à organização do evento era grande, alguns se atropelavam para falar, ignorando os gestos desesperados dos coordenadores das mesas e dizendo que não legitimavam o processo nos seus estados. Assim, o clima tenso em alguns grupos foi crescendo. O de Educação era o mais polêmico, com grandes cisões partidárias.


grupo de trabalho


Os corredores da Câmara estavam cheios. Murmúrios de um lado, gritos de outro, alguns repórteres nos cantos e muita gente diferente passando de lá pra cá. Alguns grupos estavam cheios e agitados, como o de jovens índios e afrodescendentes, enquanto em outros, como o de meio ambiente, as pessoas ocupavam o chão da Câmara e pareciam mais tranqüilas com a discussão. Nos corredores, vi grupos conversando e ouvi comentários interessantes. Preocupações e ponderações sobre o processo do Plano, desde as etapas estaduais, angústias em relação ao conteúdo das discussões, piadas e risadas sobre as pérolas ditas e ouvidas...

− No meu grupo todo mundo fala bonito, saem propostas lindas, otimistas e muito bem intencionadas, mas sinceramente, não consigo ver no que vai dar. É tudo muito vago, estão repetindo os objetivos do texto original do plano, sem propostas concretas, muito menos com prazos e metas.

− Já no meu, as pessoas querem discutir leis que já estão em vigor, como a LDB, e o foco nas propostas se perde - disse uma participante do grupo de Educação.

− Sinceramente, isso tudo aqui é uma balela. Se eu fosse um deputado, sabe o que eu tinha feito? Abria uma conta de e-mail. Assim: planonacionaldejuventude@yahoo.com.br. Aí anunciava na Globo: Se você quer contribuir com o Plano Nacional de Juventude, envie sugestões para planonacionaldejuventude@yahoo.com.br . Olha só que beleza! Ia sair mais barato, todo mundo ia mandar contribuição e ficar feliz!

De noite, já no hotel, tivemos mais reuniões. Discutíamos a proposta de entregar a carta para os deputados no encerramento ou na apresentação dos grupos de trabalho. Outra vez, fomos madrugada a dentro, tentando pactuar a influência que determinados grupos teriam na redação final das propostas dos GTs. Combinamos uma entrega bem bacana da carta do Fórum Nacional de Organizações e Movimentos Juvenis, puxada com uma ciranda. Um bom jeito de falar em política sem ter que usar gravata e ser sisudo.


Participando e assistindo o encerramento - sexta-feira

Pela manhã, os grupos mais polêmicos ainda estavam enrolados com seu trabalho, o de Educação e o de jovens homossexuais, que tentava bravamente mudar seu nome para grupo GLBTTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). No grupo de jovens homossexuais, havia a presença de delegados evangélicos paranaenses. Estavam no grupo barrando as propostas mais progressistas e tornando o debate exaustivo. Fiquei perplexa quando sentei ao fundo para observar e escutei um deputado indignado, reclamando que na mesa havia dois gays e uma lésbica, que não representam a família brasileira. Chegaram a pedir para tirar a bandeira do arco-íris da mesa.

Pela tarde, viria a apresentação dos grupos de trabalho. Voltando do almoço, ouvi ao longe algumas vozes cantando: "essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós, ela é de todos nós". Entrei na roda com as pessoas animadas que cantavam alto e brincavam naquele ambiente tão formal que é a Câmara. E foi no clima dessas palhaçadas, com os sorrisos e as gargalhadas que fomos para o momento final do Seminário - a plenária no auditório Nereu Ramos.


ciranda

Quando entrei, o auditório já estava cheio. Na mesa principal estava só o Dep. Reginaldo Lopes, nenhum outro deputado da Comissão ficou até o final do encontro. Será a falta de interesse somada com a agenda eleitoral?

Inverteram a ordem para se começar pelo grupo 14, que tratou da metodologia, incubido de pensar na organização de um processo mais organizado, participativo e democrático para futuras ocasiões. Após lerem o resultado da discussão desse GT, pediram ao deputado para ler e apresentar também a carta do Fórum Nacional. Enquanto as pessoas na platéia davam as mãos para formar a ciranda, o Jonas, da Rede Sou de Atitude do Amazonas, começou a leitura, mas foi interrompido.

Nessa hora, um grupo partidário entra no auditório com seus gritos e palavras de ordem. Umas 50 pessoas entram defendendo seu candidato à presidência. Outro grupo, menor, começa a retrucar. O grupo maior, que estava ouvindo a leitura da carta, começa a vaiar. Mais alguns minutos de gritos e vaias, e os ânimos foram acalmados, ou pelo menos interrompidos pelos pedidos do Deputado e dos jovens que liam a carta no palco. E foi assim, tão de repente como o momento anterior, que a leitura prosseguiu e todos - inclusive aqueles que brigavam minutos antes - se juntaram numa ciranda mais uma vez. Surreal e irônico, com certeza. "Vamos ver como vai ser o resto dessa plenária", ouvi alguém dizer ao meu lado. Ainda tinham 13 grupos para se apresentar, mais 2 demonstraram polêmica: o de Educação e o de jovens GLBTTT.

No de educação, enquanto Clarissa Mateus, filha do pré—candidato à presidência pelo PMDB, Anthony Garotinho, tentava apresentar os resultados do GT, a jovens do Rio de Janeiro bradava palavras de ordem contra o governo Rosinha. Já no de jovens GLBTTT, enquanto os evangélicos distribuíam uma carta com críticas ao grupo, se opondo à luta pela garantia de direitos civis, os ativistas do movimento organizaram um beijaço gay.


palavras de ordem contra o governo Rosinha

beijaço


Refletindo um pouco – sábado

Alguns delegados e membros do Conselho Nacional de Juventude ficaram mais um pouco em Brasília, para conversar mais profundamente com a consultora da Comissão Especial do Plano, a senhora Helena Heller.

Foi explicado, entre outras coisas, que a sistematização das contribuições estaduais não foi entregue no credenciamento por falta de papel para rodar todas as propostas para 400 pessoas. Não pensaram em afixar nas paredes ao menos algumas para consulta prévia.

E falou também que esses processos de consulta sobre um projeto de lei são coisa raríssima no nosso Congresso, ao mesmo tempo tão pouco representativo. A funcionária com mais de 25 anos de experiência em assessoria parlamentar conta que está escrevendo a história da Câmara, participando de um processo desses, que se ao menos tentou e ousou escutar algumas vozes (que não a de outros parlamentares apenas).

É sempre bom lembrar das diferentes leituras que se colocam em cima do mesmo processo. Tem duas visões claras aqui postas: a visão de que o processo foi medíocre, que poderia ter sido mais bem preparado e cuidado, e a visão de que esse processo conseguir quebrar barreiras muito conservadoras, tentando ao menos fazer um processo diferenciado. É claro que essas visões se cruzam, e não há fronteira bem delimitada entre uma e outra para se analisar cada pequena etapa desse processo. E é necessário também perceber os grupos que fazem cada uma dessas análises. Partidos políticos e movimentos sociais. Cada um com seus processos internos de participação e decisão. Colocar os dois juntos, sem que os dois estejam dispostos a conviver, é pedir para se continuar com duas visões que se pretendem antagônicas. Mas, que se continuarem antagônicas, extremamente opostas, sem zonas de intersecção, de pouco adianta para nós. Sejamos nós Partidos ou nós movimentos sociais. Ou mesmo nós, jovens.


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