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Editorial
Essa edição é especial para o nosso leitor assíduo do
Falando em
Política, pois o que você irá encontrar nessa edição não
são notícias como estamos acostumados a ler nos meios de
comunicação.
Com
a idéia de expressar nossas percepções sobre o Seminário
do Plano Nacional de Juventude, decidimos escrever as
páginas do diário de uma personagem fictícia.
Assim, esperamos levar o leitor por um passeio na Câmara durante os dias em que
ocorreu o seminário, colhendo falas que observamos e
acontecimentos ímpares que presenciamos. Porém, se a
personagem é fictícia, os fatos relatados, por outro lado, não
são bem ficção. Escrevendo páginas de diário, exploramos a
liberdade de fazer análises e sermos opinativos. O relato não
prima pela neutralidade e objetividade. Pelo contrário, está
carregado de adjetivos e é sim parcial diante dos
acontecimentos presenciados por suas autoras. Um dos insumos
para esse texto foi a pesquisa
paralela que realizamos entre os participantes do
encontro, onde expressaram suas opiniões e registraram seus
relatos. Em breve teremos a sistematização completa da
pesquisa e a divulgamos na próxima edição.
Por
fim, cabe ressalta que essa não é a opinião e posicionamento
do Falando em Política, mas das autoras do texto. Portanto,
pedimos para que outros e outras jovens nos enviem relatos de
suas experiências durante o Seminário do Plano Nacional de
Juventude.
Para satisfazer a curiosidade sobre os momentos que não
são facilmente descritos com palavras, colocamos a cobertura
fotográfica à disposição de vocês. Para acessá-la, clique aqui.
Pesquisa com Leitores e
Errata
O
site e o boletim do Falando em Política estão passando por
algumas transformações. Pretendemos torná-los mais interativos
e interessantes para nossos leitores. Por isso, precisamos
saber quem é você, o leitor do Falando em Política. Pedimos
que você separe alguns minutos do seu dia para responder nossa
pesquisa. Sortearemos um brinde especial do Falando em
Política para os que responderem nossas
perguntas.
Para responder a pesquisa,
clique aqui.
Errata: No último boletim do Falando em Política o
assunto do email enviado aos leitores saiu “Falando em
Polícia” quando deveria ter sido “Falando em Política”.
Agradecemos ao leitores que fizeram questão de lembrar que
questões de polícia são uma coisa, e questões de política
ainda são outra.
Chegando em Brasília –
quarta-feira
Lá
fomos nós subir no ônibus para ir rumo a Brasília. Éramos os
delegados tirados no encontro estadual sobre o Plano
Nacional de Juventude. No nosso estado foi difícil
conseguir passagem para Brasília. Os delegados ligados ao
mandato do deputado que organizou a audiência estadual tiveram
mais facilidades. Nós tivemos que buscar apoio numa ONG de
outro estado, e o ônibus que trouxe os delegados de lá, no
caminho passou na nossa cidade. No nosso estado a audiência
estadual teve muita disputa entre grupos por espaço, mas
comparado às histórias que ouvíamos de São Paulo, Rio e
Amazonas, achamos até que nem tinha sido tão ruim
assim.
Depois de algumas horas, chegamos a Brasília e fomos
para o Hotel combinado com a Comissão, onde ficariam os
delegados e convidados. Já tinha ido para Brasília uma vez,
participar de outro encontro, a Conferência Nacional de Juventude. A experiência não foi das melhores. Grupos de
trabalho que não aconteceram, nada de facilitação de grupos e
embates agressivos.
Bem, já era tarde, mas lá estávamos, na recepção do
hotel. O Conselho Nacional de Juventude havia decidido não
participar. Mesmo assim, alguns conselheiros ainda
apareceram na esperança de tentar contribuir de alguma
maneira. Estávamos todos juntos, esperando dar a hora da
reunião das organizações da sociedade civil, que havíamos
planejado por e-mail. Enquanto esperávamos os colegas de
outros estados, chega o deputado relator, Reginaldo Lopes (PT/MG), e
conversa sobre as alterações que serão feitas em cima da hora,
na programação do evento. O folder que será entregue no
credenciamento estará desatualizado quando o recebermos. O
deputado falou que para não dizerem que não dialogou com os
movimentos sociais, veio para anunciar a criação de um novo
GT. Em vez de 13, serão 14 grupos. Esse grupo 14 será para
colher as avaliações e sugestões sobre o processo do seminário
para um próximo.
Já
na reunião, há 3 itens de pauta: Falar sobre o grupo recém
criado de metodologia, relatar casos das etapas estaduais e
falar das cartas a serem entregues à Comissão. Existe uma do
Fórum Nacional de Organizações e Movimentos
Juvenis e outra chamada de Carta Manifesto de São Paulo .
Aliás, parece que no total existem 13 cartas circulando pelo
encontro, criticando a forma como as audiências estaduais
foram realizadas. A reunião começa, as pessoas se inscrevem
para falar e falam. É tarde, quase meia noite, e o Deputado
relator, que estava numa reunião do lado com as juventudes
partidárias, aparece para tirar algumas dúvidas sobre o
encontro. Vem à tona o impasse em relação aos delegados não
oficias, os que foram tirados em processos paralelos. É
relatado o caso específico do Amazonas e São Paulo, e o
deputado afirma que não serão reconhecidos como delegados, no
máximo ouvintes, se o espaço comportar a presença deles. Afirma também que isso não é
tão importante, pois não haverá votação no encontro, tudo será
consensuado. Lamartine Babo, do CONJUV, lembra que ao menos 40
conselheiros não foram, mas sua presença já estava prevista.
Ou seja, essa turma dos processos paralelos pode ficar com
essas vagas.
Enquanto isso, as juventudes partidárias estavam com o
Deputado Reginaldo Lopes para definir a condução dos grupos
durante o Seminário.
PCdoB, PMDB, PSB, PSDB e PT esboçavam alguma crítica ao processo. Mas será que
esboçaram alguma auto-crítica?
Começa o Seminário –
quinta-feira
Começou o credenciamento. Não há a menor certeza sobre
quem será considerado delegado, quem será convidado e se
alguém será barrado. Por fim, todos entram. Dentro da pasta do
encontro, para surpresa de todos, não há nem a sistematização
das contribuições estaduais e nem o texto com a proposta de
substitutivo do relator.
Começou a abertura com o presidente da Comissão,
Lobbe Neto (PSDB/SP), o relator
Reginaldo Lopes (PT/PT) e a Secretária Adjunta da Secretaria Nacional da Juventude, Regina Novaes. O Auditório Nereu Ramos, o maior da
Câmara, estava cheio. Enquanto o relator, Reginaldo Lopes,
falava o que esperava do encontro, lá do fundo, alguém gritou:
“Mostra o substitutivo!” Quem teve mais sorte com a platéia
foi a Regina Novaes, que conseguiu acalmar os ânimos, e pediu
para que os jovens escutem outros jovens nesse processo, sem
se fechar a suas bandeiras exclusivas.

Depois do almoço, dentro dos grupos de trabalho, volta
a polêmica sobre os delegados oficiais e as decisões. Se o
consenso não acontecer naturalmente, é necessário forçar a
unanimidade. Logo, se recorreria ao voto. E aí, quem teria
direito ao voto? Apenas um delegado por estado? Vários estados
tinham 2 delegados, pois não fizeram a etapa estadual de uma
só vez.
Esse não foi a único ponto complicado para os grupos.
Alguns ficaram perdidos sem saber como começar. Demoraram para
decidir a dinâmica, ler as dezenas de propostas entregues no
dia e começar a priorizar. A vontade dos participantes de
expressar a insatisfação quanto à organização do evento era
grande, alguns se atropelavam para falar, ignorando os gestos
desesperados dos coordenadores das mesas e dizendo que não
legitimavam o processo nos seus estados. Assim, o clima tenso
em alguns grupos foi crescendo. O de Educação era o mais
polêmico, com grandes cisões partidárias.
Os
corredores da Câmara estavam cheios. Murmúrios de um lado,
gritos de outro, alguns repórteres nos cantos e muita gente
diferente passando de lá pra cá. Alguns grupos estavam cheios
e agitados, como o de jovens
índios e afrodescendentes, enquanto em outros, como o de
meio ambiente, as pessoas ocupavam o chão da Câmara e pareciam
mais tranqüilas com a discussão. Nos corredores, vi grupos
conversando e ouvi comentários interessantes. Preocupações e
ponderações sobre o processo do Plano, desde as etapas
estaduais, angústias em relação ao conteúdo das discussões,
piadas e risadas sobre as pérolas ditas e ouvidas...
−
No meu grupo todo mundo fala bonito, saem propostas lindas,
otimistas e muito bem intencionadas, mas sinceramente, não
consigo ver no que vai dar. É tudo muito vago, estão repetindo
os objetivos do texto original do plano, sem propostas
concretas, muito menos com prazos e metas.
−
Já no meu, as pessoas querem discutir leis que já estão em
vigor, como a LDB, e o foco nas propostas se
perde - disse uma participante do grupo de Educação.
−
Sinceramente, isso tudo aqui é uma balela. Se eu fosse um
deputado, sabe o que eu tinha feito? Abria uma conta de
e-mail. Assim: planonacionaldejuventude@yahoo.com.br. Aí
anunciava na Globo: Se você quer contribuir
com o Plano Nacional de Juventude, envie sugestões para
planonacionaldejuventude@yahoo.com.br . Olha só que
beleza! Ia sair mais barato, todo mundo ia mandar contribuição
e ficar feliz!
De
noite, já no hotel, tivemos mais reuniões. Discutíamos a
proposta de entregar a carta para os deputados no encerramento
ou na apresentação dos grupos de trabalho. Outra vez, fomos
madrugada a dentro, tentando pactuar a influência que
determinados grupos teriam na redação final das propostas dos
GTs. Combinamos uma entrega bem bacana da carta do Fórum
Nacional de Organizações e Movimentos Juvenis, puxada com uma
ciranda.
Um bom jeito de falar em política sem ter que usar gravata e
ser sisudo.
Participando e assistindo o
encerramento - sexta-feira
Pela manhã, os grupos mais polêmicos ainda estavam
enrolados com seu trabalho, o de Educação e o de jovens
homossexuais, que tentava bravamente mudar seu nome para grupo
GLBTTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e
Transgêneros). No grupo de jovens homossexuais, havia a
presença de delegados evangélicos paranaenses. Estavam no
grupo barrando as propostas mais progressistas e tornando o
debate exaustivo. Fiquei perplexa quando sentei ao fundo para
observar e escutei um deputado indignado, reclamando que na
mesa havia dois gays e uma lésbica, que não representam a
família brasileira. Chegaram a pedir para tirar a bandeira do
arco-íris da mesa.
Pela tarde, viria a apresentação dos grupos de
trabalho. Voltando do almoço, ouvi ao longe algumas vozes
cantando: "essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós,
ela é de todos nós".
Entrei na roda com as pessoas animadas que cantavam
alto e brincavam naquele ambiente tão formal que é a Câmara. E foi no clima dessas
palhaçadas, com os sorrisos e as gargalhadas que fomos para o
momento final do Seminário - a plenária no auditório Nereu
Ramos.
Quando entrei, o auditório já estava cheio. Na mesa
principal estava só o Dep. Reginaldo Lopes, nenhum outro
deputado da Comissão ficou até o final do encontro. Será a
falta de interesse somada com a agenda
eleitoral?
Inverteram a ordem para se começar pelo grupo 14, que
tratou da metodologia, incubido de pensar na organização de um
processo mais organizado, participativo e democrático para
futuras ocasiões. Após lerem o resultado da discussão desse
GT, pediram ao deputado para ler e apresentar também a carta
do Fórum Nacional. Enquanto as pessoas na platéia davam as
mãos para formar a ciranda, o Jonas, da Rede Sou
de Atitude do Amazonas, começou a
leitura, mas foi interrompido.
Nessa hora, um grupo partidário entra no auditório com
seus gritos e palavras de ordem. Umas 50 pessoas entram
defendendo seu candidato à presidência. Outro grupo, menor,
começa a retrucar. O grupo maior, que estava ouvindo a leitura
da carta, começa a vaiar. Mais alguns minutos de gritos e
vaias, e os ânimos foram acalmados, ou pelo menos
interrompidos pelos pedidos do Deputado e dos jovens que liam
a carta no palco. E foi assim, tão de repente como o momento
anterior, que a leitura prosseguiu e todos - inclusive aqueles
que brigavam minutos antes - se juntaram numa ciranda mais uma
vez. Surreal e irônico, com certeza. "Vamos ver como vai ser o
resto dessa plenária", ouvi alguém dizer ao meu lado. Ainda
tinham 13 grupos para se apresentar, mais 2 demonstraram
polêmica: o de Educação e o de jovens
GLBTTT.
No
de educação, enquanto Clarissa Mateus, filha do
pré—candidato à presidência pelo PMDB, Anthony Garotinho, tentava
apresentar os resultados do GT, a jovens do Rio de Janeiro
bradava palavras de ordem contra o governo Rosinha. Já no de
jovens GLBTTT, enquanto os evangélicos distribuíam uma carta
com críticas ao grupo, se opondo à luta pela garantia de
direitos civis, os ativistas do movimento organizaram um
beijaço gay.


Refletindo um pouco –
sábado
Alguns delegados e membros do Conselho Nacional de
Juventude ficaram mais um pouco em Brasília, para conversar
mais profundamente com a consultora da Comissão Especial do
Plano, a senhora Helena Heller.
Foi
explicado, entre outras coisas, que a sistematização das
contribuições estaduais não foi entregue no credenciamento por
falta de papel para rodar todas as propostas para 400 pessoas.
Não pensaram em afixar nas paredes ao menos algumas para
consulta prévia.
E
falou também que esses processos de consulta sobre um projeto
de lei são coisa raríssima no nosso Congresso, ao mesmo tempo
tão pouco representativo. A funcionária com mais de 25 anos de
experiência em assessoria parlamentar conta que está
escrevendo a história da Câmara, participando de um processo
desses, que se ao menos tentou e ousou escutar algumas vozes
(que não a de outros parlamentares apenas).
É
sempre bom lembrar das diferentes leituras que se colocam em
cima do mesmo processo. Tem duas visões claras aqui postas: a
visão de que o processo foi medíocre, que poderia ter sido
mais bem preparado e cuidado, e a visão de que esse processo
conseguir quebrar barreiras muito conservadoras, tentando ao
menos fazer um processo diferenciado. É claro que essas visões
se cruzam, e não há fronteira bem delimitada entre uma e outra
para se analisar cada pequena etapa desse processo. E é
necessário também perceber os grupos que fazem cada uma dessas
análises. Partidos
políticos e movimentos
sociais. Cada um com seus processos internos de
participação e decisão. Colocar os dois juntos, sem que os
dois estejam dispostos a conviver, é pedir para se continuar
com duas visões que se pretendem antagônicas. Mas, que se
continuarem antagônicas, extremamente opostas, sem zonas de
intersecção, de pouco adianta para nós. Sejamos nós Partidos
ou nós movimentos sociais. Ou mesmo nós,
jovens.
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